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A Enchente
A enchente de imagens que nos assalta no dia-a-dia é um fenómeno que encerra em si uma falha: tendemos a reter apenas uma idealização de um objecto visto. Carregamos connosco um acervo de imagens feitas, de modo que não observamos sempre os pormenores específicos de um objecto. O cérebro, originalmente, codifica determinadas marcas de um objecto do mundo exterior para uma reacção rápida que pode significar a diferença entre vida e morte.
Desde o Paleolítico o ser humano produz imagens que reflectam as suas vivências. Para isso, além da simples captação da imagem para efeitos de sobrevivência, tem de haver um processamento da mesma que implica observação, reflexão e descodificação. Em suma, tem de haver um tempo de contemplação para este efeito. Uma pausa, um tempo de lazer e de despreocupação. O fruto disso chama-se cultura. É essencial para a melhor sobrevivência, porque acrescenta ao código instintivo a experiência processada e o estímulo intelectual.
Este fenómeno torna-se tarefa colossal no meio urbano e nesta era do virtual. O próprio meio é sobrecarregado de objectos – já de si fabricados – e a quantidade de imagens produzidas é uma torrente contínua. Todas elas apelam ao processamento cerebral. Logo, a cultura torna-se num obstáculo a si próprio, se não houver no indivíduo um processo de contemplação tutelar visando uma escolha deliberada por entre todas as manifestações de cultura.
Andreas Stöcklein
Artista plástico
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