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A Origem do Mundo
O homem tinha preparado um púcaro de café, antes de se sentar, ainda em roupa matinal, com determinação na cadeira do escritório da casa. A vista desafogada sobre a estação do Rossio quebra-se contra as fachadas dispostas num denso jogo de perspectivas na próxima colina.
A portada do varandim, aberta, traz-lhe a sonolência da cidade como ruído de fundo. O chilrar das andorinhas corta a brisa leve a circundar o quinto, e último, andar. Neste Domingo, os badalos da igreja um pouco mais distante, a tocar para as nove, soam pela luz coberta de cinzento. As gotas da chuva da noite sobre as folhas das plantas esperam evaporar-se com preguiça ao raiar ocasional de um sol a romper as nuvens.
Ainda saboreia a noite dos dois corpos. Sente-a destilada nos seus lábios em gotículas olfácticas, quase melosas, leve substância, mais que memória, mas difusa. A ponta da língua debica as sensações nelas encerradas, procura dissolver a própria vida como que fundida em botão de âmbar. Enquanto procura as letras todas, ainda reverbera – sino tocado havia pouco – no eco da tremura.
"Toda a arte é erótica”, dizia o arquitecto vienense Adolf Loos há um século, decifrando a cruz em máscula interpretação como mulher deitada e homem erecto. Talvez seja que o motor da arte se alimente na libido e na apropriação do desejado através da criação. Assim, a arte seria íntima transmutação, projecção pessoal a fazer eco na projecção de um público.
Texto escrito com as regras anteriores ao novo acordo ortográfico
Andreas Stöcklein - Artista plástico
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