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Projeção digital em Portugal

 

A substituição dos equipamentos analógicos de projeção das salas de cinema comerciais por equipamentos digitais é apresentada habitualmente como sinónimo irrefutável de incremento da qualidade de imagem e som dos filmes apresentados. No entanto, mais do que procurar melhorar a experiência percetiva do espetador, a indústria cinematográfica procura convencer o seu público da existência de elementos diferenciadores na nova tecnologia de exibição do cinema que auxiliem a venda dos produtos fílmicos no seu contexto convencional em oposição à concorrência dos restantes ecrãs. Mediante esta transição, a indústria visa ainda lidar com o crescente aumento do registo de imagens em equipamentos digitais e a consequente redução da fabricação de película de 35 mm, que implica novos equipamentos para a sua exibição.

Para facilitar a conversão e permitir à indústria cinematográfica dominante controlar e liderar este processo foi criado, em 2002, o Digital Cinema Initiatives (DCI), um comité constituído pelos sete grandes estúdios de Hollywood (Warner, Fox, Universal, Paramount, Disney, DreamWorks e Sony), responsável pela criação de uma norma comum, divulgada em julho de 2006, indicadora dos padrões de exibição dos seus filmes nas salas. Portugal assume, na Europa, um lugar dianteiro no processo de conversão das salas de cinema para projeção digital adaptadas à norma DCI, contando com, segundo dados de 2009 publicados pelo ICA, 30 complexos multiplex de cinema e 268 ecrãs (180 são sistemas digitais 2K e 88 sistemas 3D, pertencendo a sua esmagadora maioria à Zon Lusomundo Cinemas, pioneira na sua introdução no país).

Perante este novo cenário, não só é possível debater a perceção de uma efetiva melhoria de qualidade da exibição, como têm feito vários investigadores da área cinema e dos novos media, mas também identificar preocupações de ordem técnica. Uma destas consiste no facto de os equipamentos não estarem preparados à partida para exibir filmes estereoscópicos (ou 3D) e de este tipo de projeção criar a necessidade de uma nova adaptação que implica custos adicionais. Outra diz respeito à rápida obsolescência tecnológica destes dispositivos.

Mais sérias ainda são as preocupações de ordem económica e política. Ao adotar-se a norma DCI, o processo de conversão fica agrilhoado aos ditames sociais, políticos e comerciais da indústria de Hollywood. Em Portugal não se conhece qualquer tentativa de debelar esta situação como, por exemplo, a proposta do UK Film Council de optar por um sistema alternativo para a exibição de conteúdos locais e de cinematografias minoritárias, ou a alternativa, já efetivada, da empresa brasileira RAIN NETWORKS.

 

Marta Pinho Alves - Professora de Guionismo, Cinema e Televisão

 

 

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