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Por entre os intervalos da chuva
Estivemos longos minutos à espera que ela parasse. Por momentos, sentimos que o concerto não se iria realizar, tal a insistente cortina de chuva que se abateu no palco instalado na Av. Luísa Todi, mesmo junto do coreto.
O 1.º de Maio representa uma época de festa para todos os trabalhadores e, desde que eu me lembro, o Andarilho sempre esteve presente, mesmo após o seu desaparecimento.
O seu exemplo continua nas ações dos resistentes que exercem os seus direitos nas manifestações de rua, mobilizando alguns milhares de entusiastas que, após o comício, libertam a adrenalina acumulada e reprimida – pelo cenário de recessão económica em que de repente nos vimos 'apanhados' – e mergulham na música que todos conhecem e pela qual anseiam.
É assim há mais de três décadas que a Banda do Andarilho destila na nossa cidade o perfume das suas abordagens às músicas e poemas dos nossos autores, como o Zeca Afonso, o Fausto, o José Mário Branco e o Sérgio Godinho, o Vitorino e o Adriano Correia de Oliveira, só para mencionar alguns.
É também este o lapso de tempo que tive de ver passar para poder finalmente tocar com eles, pois o seu baterista de sempre, que a cidade toda conhece por 'Ruca' mas de seu verdadeiro nome Rui Rosado, esteve impedido de o fazer por colisão de agendas de concertos.
Assim e após dois ensaios e meio, fui tocar naquele dia tão emblemático com o Jorge Patrício, nas vozes e guitarra, o Albano Almeida nas guitarras, o Paulo Sequeira no baixo, a Helena Guerra nas vozes e percussões e a Helena Mendes no acordeão e vozes.
Foi para mim um privilégio e um prazer poder partilhar com eles aquele palco quase diluviano, tendo a banda apresentado um reportório de 12 músicas, celebrando o génio criativo daqueles autores supracitados.
Este grupo de amigos, cuja estrutura se mantém desde sempre ligada, ostenta hoje uma identidade sonora e estética digna de reconhecimento, estando também à altura de produzir material original – o qual tive oportunidade de ouvir, podendo mesmo atestar o elevado grau de qualidade que possui.
No nosso país as dificuldades de produção e promoção das atividades artísticas são por demais reconhecidas e, muitas vezes, os artistas só conseguem ver o seu trabalho conhecido através de edições de autor, uma vez que as editoras há muito deixaram de investir, posto que as regras de distribuição do produto criativo há muito foram alteradas, pela internet e globalização de mercados.
Eles representam assim um elemento de resistência, tendo sempre acreditado no seu projeto, não ficando em casa à noite com os chinelos calçados a olhar para uma qualquer televisão, optando por uma partilha e descoberta de talentos, há muito reconhecidos na nossa cidade.
Fernando Marques - Músico
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