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Firmino Matos

 

“O ‘Beco’ é como um filho...”

O nome que recebeu no baptismo confunde-se com o do restaurante que abriu já lá vão mais de quatro décadas, que falar, em Setúbal, de Firmino é o mesmo que falar de 'O Beco' e vice-versa.

Mas, a actividade profissional deste homem simples e afável, navegador do mar da vida, tantas vezes encapelado, não teve por raiz tachos e frigideiras. Tudo começou com uma vaca, prenda do pai por ter concluído a instrução primária. Com ela, o puto fez-se à vida, a vender leite de porta em porta, em cima de uma bicicleta. Três anos depois – “já tinha 14 cabeças” – percebeu que os “bichos não têm férias”.

Confidenciou ao progenitor a descoberta e trocou de profissão. Passou a “tendeiro”, com banca no Mercado do Livramento, em Setúbal. Pelo meio, em “propriedade arrendada”, andava do amanho da terra, até perceber que o tempo também faz negaças: “Choveu tanto naquele ano que as batatas apodreceram todas. Tentei o feijão e foi a mesma coisa.”

Enfurecido, avisou o pai: “Não volto à lavoura.” E não voltou.

Ao sair da tropa, comprou, a uma tia, uma casa de pasto, na Rua Antão Girão, em Setúbal. Pagou 80 contos e transformou-o em restaurante. Foi o primeiro. Arregaçou as mangas e outros se lhe seguiram. Entre eles, 'O Beco' – “antiga Tasca dos Carecas” –, que abriu com pompa e circunstância: “Tinha porteiro e as fardas dos empregados foram copiadas das roupas do Bocage. Paguei mais por elas do que pelas mobílias.” Foi há 41 anos.

Pelo meio, forneceu refeições a cantinas de empresas, teve um bar, abriu outros restaurantes – “cheguei a ter cinco, ao mesmo tempo, um deles em Palmela” – e trespassou-os. 'O Beco', mesmo tendo conhecido melhores tempos, continua de portas abertas. Porque é como um filho?

Com olhos de lágrimas:

– Isso, como um filho. Não sei se o amo se o mato.

Em jeito de penitência:

– Respeito tanto a vida como a morte.

Na hora de prestar justiça:

– Tudo o que consegui foi por ter ao meu lado a mulher que tenho, sem ela...

 

Firmino Nunes de Matos nasceu, em 7 de Dezembro de 1938, na Quinta do Anjo, concelho de Palmela, onde morou, em casa dos pais, até aos 21 anos.
Aos 11, concluiu a instrução primária, após o que começou a trabalhar como leiteiro. Aos 14 anos, mudou de ramo. Continuou a vender, mas hortaliça, com banca montada no Mercado do Livramento, em Setúbal. Aos 19, foi obrigado a trocar as couves pela tropa.
Na hora de despir a farda, montou o primeiro restaurante. Outros se lhe seguiram. Chegou a ter cinco. Em simultâneo!
Aos 68 anos, continua à frente de “O Beco”, inaugurado há 41. Casado, tem duas filhas e dois netos. É a eles que dedica o pouco tempo livre que o negócio lhe deixa.
 

 

Televisão...
Essencialmente, noticiários e desporto

Cinema...
Só na televisão

Leitura...
Gosto, mas leio pouco

Música...
Não sou muito de música

Comida...
Já comi e bebi muito. Agora, gosto de sopa, qualquer

 

 

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