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O amigo de Andersen
A mentalidade nórdica, alimentada por um coração dinamarquês, corre nas veias do designer Niels Fischer como se Hans Christian Andersen ainda passeasse pelas ruas de Copenhaga.
Niels Fischer rejeita falar da generalidade dos 76 anos que constituem o seu passado. “Porque é que eu interesso?”, questiona, convencido de que o design de identidade visual que produz começa e acaba nas imagens que cria.
Realmente, passados perto de 20 anos da criação do logotipo do Ministério da Saúde, poucos saberão que o autor foi o designer dinamarquês ou que este, na altura, apenas cobrou o custo de produção do projeto. “Trata-se da saúde de todos, não é?”, pergunta, respondendo.
Residente em Portugal “há, pelo menos, metade da vida”, é um abnegado promotor da obra de Hans Christian Andersen, escritor dinamarquês conhecido pelos contos infantis, “mas que são muito mais do que apenas isso”.
“Um Bom Amigo” é o título de uma exposição itinerante que produziu e financiou, patente no Museu do Trabalho Michel Giacometti entre 14 de julho e 16 de setembro, num esforço que desenvolve para que o verdadeiro Hans Christian Andersen chegue a mais portugueses. “Se Camões, com aquela pala, passasse por um pirata aos olhos de um americano, seria ridículo, não?”, brinca, em jeito de desafio.
As respostas de Niels Fischer são frequentemente dadas no formato interrogativo. O designer gosta de saber que o interlocutor está a pensar no que se conversa no momento, de promover o raciocínio e gerar diálogo.
O sangue escandinavo sobressai a cada instante do fluente português com sotaque. O realismo, gratificante ou doloroso para os sentimentos de cada um, é uma constante no discurso. “Hans Christian Andersen, por exemplo, tinha um espírito crítico genial, mas escrevia mal”, confessa.
Pelo meio dos 76 anos, assistiu, em criança, à violência da ocupação nazi, “os soldados alemães eram frios, pareciam robots”, e viveu cerca de 15 anos as duras responsabilidades de um oficial do exército dinamarquês, pois “havia contas para pagar”.
Pelo meio casou com uma portuguesa, artista plástica, a quem, certo dia, lhe ligaram da Dinamarca sobre as peças que tinha em exposição num dos mais conceituados espaços de Copenhaga: – Senhora Fischer? Sim… É com honra que lhe comunicamos que as suas obras foram roubadas do museu. – E o casal Fischer, vendo apenas o “branco” na dicotomia da alarmante notícia, sentiu-se efetivamente honrado com a notícia.
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