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“Setúbal é a minha terra-mãe da pintura”

 

Adão Rodrigues andava no segundo ano da Escola Industrial e Comercial, em Setúbal, quando um professor – de português e ciências! – ao ver uma ilustração que ele fizera encontrou nela laivos de Cézanne.

Tudo começou com um trabalho de casa, a “ilustração de um diário”, uma “mistura de cores em aguarela”.
O professor viu, gostou, chamou-o e disse-lhe que o trabalho lhe fazia lembrar Cézanne.

O rapaz nunca tinha ouvido falar em tal nome. Foi, por isso, descobri-lo. Leu tudo o que pôde sobre o mestre francês. Hoje, reconhece, tal facto teve influência no pintor que é.

Já em Lisboa, estudante de pintura decorativa na Escola António Arroio, conviveu com nomes cimeiros das artes, entre os quais integrantes do grupo surrealista, como era o caso de Mário Cesariny, expoente daquela corrente. No regresso a Setúbal, no final da década de 50, o choque com a sociedade fechada de então, onde um “pintor era, ainda, no mínimo, olhado de soslaio, com desconfiança, mesmo pela própria família”.

Apesar desse ambiente conservador, foi em Setúbal que, em Julho de 1959, expôs pela primeira vez. Local escolhido, o Clube de Campismo – centro de manifestações culturais frequentado por antifascistas –, alvo constante de vigilância apertada da PIDE, polícia política do regime.

A juntar ao arrojo pela opção do local, “a exposição era ilustrada por palestras”. Na escolha dos oradores, o jovem pintor voltou a não ousar. Convidou Florido Vasconcelos, professor de História de Arte, para falar sobre a obra de Amadeo de Souza-Cardoso, e Ernesto de Sousa, crítico de arte, opositor ao salazarismo, um dos pioneiros do Novo Cinema Português, surgido três anos depois.

Por tudo isto, não tem dúvidas: “Setúbal é a minha terra-mãe da pintura.”
Quase cinco décadas depois, passada a “fase das transparências e dos azuis”, o pintor preocupa-se, “acima de tudo, em recriar e refazer imagens do real”. E confessa: “Nunca sei qual é o resultado final do trabalho que tenho em mãos, há avanços e recuos até atingir o ponto que quero.”

O Porto, cidade natal, e Setúbal, onde cresceu e percebeu que ia ser pintor, continuam, mesmo vivendo em Lisboa, a ser preponderantes na obra de Adão Rodrigues: “A minha pintura tem duas atmosferas, a nortenha que me transporta ao granito e aos castanhos, e a setubalense, a das claridades.”
Outra revelação: “Quando estou mais alegre refugio-me nas sombras do Norte, se me sinto deprimido vou a Setúbal.”

 

Adão Rodrigues nasceu no Porto, em 7 de Agosto de 1935, mas aos 2 anos veio viver com os avós em Setúbal.
Os estudos primários fê-los na Escola Conde Ferreira, após o que se matriculou na Escola Industrial e Comercial. Foi aqui que um professor o incentivou a ir para a “António Arroio”, em Lisboa, onde estudou pintura decorativa. Fez, também, um curso de iniciação à gravura, na Oficina da Galeria Quadrum, sob a orientação de David de Almeida, e outro, de aperfeiçoamento, com Maria Irene Ribeiro, na Cooperativa Diferença.
A primeira vez que apresentou trabalhos publicamente foi em 1959. Em Setúbal, no Clube de Campismo. Nunca mais parou. Expôs, praticamente, em todo o País.
De entre os vários prémios e distinções que recebeu, conta-se, em 1994, a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal. Está representado em várias colecções. Em Portugal e no estrangeiro.
Reformado da RTP – trabalhou na coordenação geral de programação e emissão –, vive em Lisboa, mas mantém ligações a Setúbal, onde se descobriu pintor.  

 

Televisão…
Vejo bastante, até por razões sentimentais, já que trabalhei durante 35 anos na RTP

Cinema…
Vejo pouco. Por culpa do atelier que, a dois passos de casa, me absorve muito tempo

Leitura…
Clássicos, mas o último livro que li é do Mia Couto

Música…
Prefiro a clássica, mas oiço, também, a outra. Gosto de Zeca Afonso

Comida…
Infelizmente, por questões de saúde, faço dieta, não como do que gosto

 

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- A mentira

 

 

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