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O apuro da escrita

 

De Teresa Veiga quase nada se sabe. Nunca deu entrevistas nem revela a sua verdadeira identidade. As suas aparições são fugazes e discretas. A última vez foi em Famalicão, para receber o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, atribuído ao livro “Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín”, título de um dos contos do livro em que se incluem “As Parcas” e “O Maldito, Marianina e o Feitiço de Rocha da Pena”.

Apesar de autora de poucos livros, a sua escrita, com uma técnica pouco usual, de notável requinte estilístico trespassado por um humor subtil e agudo espírito de observação, coloca-a em lugar de destaque na literatura moderna portuguesa. A recepção crítica entusiástica não a retira ao silêncio só interrompido pelo ruído do imenso prazer com que viramos as páginas dos seus livros. Leia-se o fim da introdução do conto que dá título ao livro:

“Sendo assim, com a consciência de não ter nada a perder, decidi ocupar o tempo que me resta a escrever o que o marquês deliberadamente ocultou por não ser risonho, nem belo, nem refinadamente erótico, nem suavemente melancólico, nem tocado pela magia desculpabilizadora do exotismo. Talvez isto confirme a sua convicção de que o marquês, apanhado na vertigem de tantos amores desencontrados, teve algumas vezes de sacrificar ao diabo, sem deixar de ser um católico devoto. ‘O diabo – escreveu ele – foi sempre um ser superior.’ Será que esta frase deve ser lida como um mero dito espirituoso? Àqueles que se indignarem por eu forçar a entrada no edifício acabado das suas Memórias atrevo-me a sugerir que estas páginas sejam lidas como um apêndice descartável da sua obra, talvez desagradável como a bula que acompanha um remédio, a qual na maior parte dos casos abala a nossa confiança, faz recear perigos insuspeitados, mas cuja ignorância não aproveita a ninguém. Veremos se terei forças para ir até ao fim mas entretanto quero reviver o passado, voltar ao dia em que o conheci, o meu amante fugaz, o místico libidinoso, o senhor marquês de Bradomín.”

Depois de se ler este excerto, largamente citado pela crítica, alguém é capaz de resistir ao filtro encantatório desta escrita?

Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín
Teresa Veiga
Edições Cotovia
Concepção Gráfica: João Botelho
1.ª edição: Outubro 2008
170 páginas

 

Manuel Augusto Araújo
Membro do Conselho de Redacção da “Vértice”

 

 

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