A Origem da Colecção

 

A colecção etnográfica que, posteriormente, viria a dar origem ao Museu do Trabalho teve o seu início após a revolução de 25 de Abril de 1974, estando directamente ligada a esta. No Outono de 1974, a situação dos jovens que tinham terminado os estudos secundários apresentava-se conturbada, existia um incremento bastante significativo de candidaturas ao ensino superior, às quais não havia forma de dar resposta. Assim em Fevereiro de 1975 foi instituído o Serviço Cívico Estudantil (SCE), que em Maio do mesmo ano já contava com cerca de quinze mil jovens inscritos; No âmbito deste projecto, Giacometti apresenta a proposta de criação de um Centro de Documentação Operário-Camponês e do Museu do Trabalho com o intuito de “documentar a vida e a luta do nosso povo”. Este seu projecto era inspirado no programa francês de educação popular “Travail et Culture”, surgido no pós guerra e o qual contava com a participação de investigadores do Musée de l´Homme; A realização destes projectos propostos teria como base uma acção de recolha etnografia, à qual Giacometti denominou de Plano de Trabalho e Cultura. Este Plano surgia assim com a missão “de recolher os testemunhos vivos do trabalho e da luta de classes do povo português em geral, contra o fascismo e a exploração capitalista”.

O Plano de Trabalho e Cultura tinha delineado como objectivos: “a recolha de literatura popular, de música regional, de instrumentos musicais, de cultura material, de medicina popular, a realização de campanhas de educação sanitária, de programas de animação sociocultural e a colaboração em trabalho úteis às populações de modo a favorecer o associativismo e cooperativismo”.

No início do Verão de 1975, aos 152 estudantes convocados foi ministrado um curso inicial, de 8 dias, de forma a prepará-los para aquelas que iriam ser as suas tarefas durante os próximos meses. Destes jovens somente 124 estudantes estiveram em operações no terreno, distribuídos por 32 equipas (as brigadas) que realizaram trabalhos de pesquisa sobretudo na região a Norte do rio Tejo.

Durante três meses estes 124 estudantes, em regime de voluntariado, portanto sem auferir a qualquer remuneração, estiveram em cerca de 90 localidades portuguesas, realizando um significativo trabalho de pesquisa e recolha etnográfica, contactaram com os habitantes destas localidades, colaboraram com estes nas mais variadas tarefas (construção de centros de recreio, tarefas agrícolas, etc.), não beneficiando, por vezes, das melhores condições.

No final desta “aventura etnográfica” foram recolhidas mais de 1200 alfaias, ferramentas e instrumentos agrícolas, de pesca e das mais diversas artes e ofícios, sendo algumas das peças doadas outras compradas. Foram efectuados cerca de 3000 registos sonoros de contos, lendas, orações, rezas, provérbios, entre outros. Os cidadãos foram inquiridos relativamente às condições de saúde e higiene pública e foram realizadas campanhas de educação sanitária; A realização desta recolha, sob a orientação de Michel Giacometti, teve o apoio de algumas instituições tais como o Ministério da Comunicação Social, Inatel, FAOJ, Câmaras Municipais e Juntas Distritais e da Fundação Calouste Gulbenkian.

inicio