A DOAÇÃO DA MERCEARIA LIBERDADE AO MUSEU

DO TRABALHO MICHEL GIACOMETTI

 

Na segunda metade do século XX, um pouco em todas as cidades portuguesas, mas especialmente em Lisboa, os bancos e as grandes empresas foram tomando o lugar dos prédios familiares das antigas zonas residenciais nobres do centro. Como vimos, o último proprietário da Mercearia Liberdade, em vez de a ver desaparecer na voragem dos tempos, entregou-a, em boa hora, como memória de um passado, à Câmara Municipal de Setúbal, que a recebeu e a mandou instalar num Museu de sua tutela, que tem como vocação primordial o trabalho e as identidades profissionais.

 

Recebe, assim, o Museu do Trabalho Michel Giacometti um espólio valioso, que vai completar, com uma alusão qualificada ao sector terciário, o ciclo das actividades económicas existente neste espaço museal e que já era constituído, fundamentalmente, pela colecção etnográfica Michel Giacometti, relativa ao sector primário e ao quotidiano doméstico a ele associado, e pela colecção da Indústria Conserveira, relativa ao sector secundário, formada por um conjunto de instrumentos e máquinas da cadeia operatória do cheio, a conserva de peixe, e do vazio, o fabrico das latas.

 

A apresentação pública da reconstituição museológica da Mercearia Liberdade que o Museu do Trabalho Michel Giacometti leva a cabo, no dia 18 de Maio de 2002, Dia Internacional dos Museus, tem como objectivo mostrar a todos os visitantes e especialmente aos munícipes um exemplo de salvaguarda de um património esquecido que é necessário estudar e preservar.

 

Com a exposição deste notável estabelecimento comercial, este Museu cumpre a Missão delineada desde a sua abertura:

O Museu do Trabalho Michel Giacometti procura conhecer, valorizar e transmitir os testemunhos materiais e imateriais ligados às memórias laborais e aos quotidianos domésticos desde meados do século XIX até à actualidade,com enfoque para a indústria conserveira, que esteve na génese e desenvolvimento da revolução industrial em Setúbal.

 

O Museu do Trabalho privilegia a função social e a relação com a comunidade como veículo de educação patrimonial. Visa também a comunicação com vários públicos utilizando estratégias múltiplas de animação com recurso às expressões artísticas.

 

O Dr. Coluna Gonçalves, ao doar esta peça do nosso Património nacional ao Museu, fez um acto cultural e pedagógico de grande dimensão e alcance, que certamente terá eco em todos os setubalenses e azeitonenses, que até hoje têm doado a este Museu muitas das colecções que o integram, certos de que, além do tratamento adequado de conservação e restauro, esses mesmos objectos, depois de estudados e expostos, devolverão aos mais diversos públicos memórias e diálogos plenos de identidade.

 

Setúbal, 1 de Maio de 2002

(*) Técnica Superior Assessora Principal (História-
Museologia), Câmara Municipal de Setúbal.