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Compreender a estrutura narrativa clássica (II)

 

Além de obedecer a uma organização linear na sequenciação dos acontecimentos e de ser constituída por momentos-chave que norteiam o desenvolvimento da acção (os tais cinco momentos que identificámos na edição anterior: a apresentação, a crise, o conflito, o clímax e a resolução), a estrutura narrativa clássica do filme é igualmente determinada pela existência de personagens-tipo que representam um papel específico na história.

A identificação destas personagens tem origem na literatura e no trabalho desenvolvido por Vladimir Propp que, em 1928, estudou a estrutura dos contos tradicionais russos. As conclusões do seu trabalho foram já múltiplas vezes citadas e reinterpretadas, servindo hoje como referência para esta categorização e aplicadas a todo o tipo de narrativas. As personagens-tipo identificadas inicialmente no trabalho de Propp e em posteriores reflexões são mais, e descritas com maior complexidade, mas podemos assinalar de forma mais simplificada aquelas que são essenciais ao desenvolvimento da acção tendo em conta os papéis que desempenham. As restantes personagens, que não assumem as características descritas em seguida, servem apenas para preencher a história.

A personagem-tipo fundamental é o herói, isto é, o protagonista, em função de cuja trajectória acompanhamos a acção. Esta é a personagem com a qual o espectador se identifica ainda que possa não partilhar dos valores ou crenças expressas pelo mesmo (imaginemos que o protagonista é um mafioso, ainda que não nos identifiquemos com a sua conduta é o seu percurso na história que vamos seguir). O herói orienta as suas acções em função de um objecto de desejo que pode ser material ou imaterial. Isto é, o objecto de desejo pode ser salvar a princesa prisioneira na torre do castelo, descobrir um tesouro, tornar-se livre ou encontrar tranquilidade. Toda a história é organizada em função das tarefas que o herói terá de executar ou das barreiras a ultrapassar até atingir o objecto de desejo. Durante este percurso, desde o momento em que é determinado o objecto de desejo e até ao momento em que o obtém (ou não), o herói passa por situações que conduzem à sua transformação e a uma aprendizagem.

Os obstáculos que se opõem à obtenção do objecto são habitualmente criados pelo oponente, outra personagem muito importante que serve para criar o momento-chave do conflito. Este é o antagonista do herói, que tudo faz para impedir a concretização dos seus objectivos. Pode ainda existir também um adjuvante na história, isto é, uma personagem que auxilia o herói na sua missão. Além desse, pode existir ainda um destinatário, uma personagem que encomenda a tarefa ao herói (por exemplo, James Bond não trabalha em função dos seus próprios objectivos mas ao serviço de "Sua Majestade") e um destinador, alguém que beneficia com a acção do herói, como a princesa que no final é libertada das masmorras do castelo.

 

Marta Pinho Alves - Professora de Guionismo, Cinema e Televisão

 

 

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