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Ler para ficar viciado na leitura

 

Sinto a necessidade de fazer uma declaração de interesses. A grande vaga de escritores sul-americanos do realismo fantástico em Portugal poderá ser balizada em 1971, com a publicação dos “Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez. Tinha sido antecedida de alguns livros relevantes, entre outros, “História Universal da Infâmia”/Jorge Luis Borges (Europa-América), “O Reino deste Mundo”/Alejo Carpentier (Presença), “Todos os Fogos o Fogo”/Cortázar (Estampa).

Nesse contexto, no primeiro trimestre de 1971, descubro um livro lindíssimo com montagens gráficas muito criativas a ilustrar textos fascinantes onde se misturavam contos, citações, poemas, reflexões, colagens sobre o que o autor via, ouvia, dizia no que tropeçava a viajar caoticamente pelo quotidiano com o sentimento de ter a “sorte excepcional de ser sul-americano, e ainda por cima argentino, e não sentir-me obrigado a escrever a sério, a ser sério, a sentar-me diante da máquina com os sapatos engraxados e uma noção sepulcral da gravidade do instante”.

O autor era Cortázar e escreveu isso numa crónica intitulada “Más sobre gatos y filósofos” no livro “La Vuelta al Día en Ochenta Mundos”. Em todos os textos, Cortázar agarra a vida, a qualquer hora do dia e em qualquer circunstância, para a meter na teia literária em que faz explodir todas as regras formais.

É um vertiginoso voo sem pára-quedas, em que rasura datas para alcançar intemporalidade, inventa títulos que piscam o olho ao leitor e o atiram para um vórtice de palavras irreverentes, belas, inteligentes, inesperadas que se (des)alinham em prosas para lá das adjectivações óbvias.

Um livro onde, dezenas de anos depois de o ter lido pela primeira vez, se vai procurar um texto e se salta para um outro, cem páginas avante ou vinte páginas atrás, sempre possuído pelo mesmo gozo. Uma pequena maravilha com que, há quase quarenta anos, persigo editores meus amigos.

Finalmente, uma editora, onde não tenho amigos ou conhecidos, publica-o para meu gáudio e para que o possa recomendar mesmo a quem tenha hábitos de leitura mitigados. Estou convicto de que ficarão viciados! Assim justifico referir um mesmo autor e uma mesma editora com poucos meses de intervalo.

A Volta ao Dia em Oitenta Mundos
Júlio Córtazar
Editor: Cavalo de Ferro Editores
Tradução: Alberto Simões
Revisão: Maria Aida Moura
Capa: Razzmatazz Design
Paginação: Finepaper
1.ª edição portuguesa: Novembro 2009
336 páginas
Título original: La Vuelta al Día en Ochenta Mundos
1.ª edição original: Siglo XXI Editores
Dezembro 1967, México
1.ª edição de livro de bolso (5.ª edição): Siglo XXI Editores
Dezembro 1970, Madrid

 

Manuel Augusto Araújo - Membro do Conselho de Redacção da “Vértice”

 

 

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