tesouros

 

 

Águas da discórdia

 

Poucos são os que se devem lembrar do Chafariz do Sapal no local onde foi originalmente colocado, na Praça de Bocage, aliás Praça do Sapal. A construção tem mais de três séculos e ao longo da sua história deu de beber à população e aos animais que puxavam carroças.

Além da utilidade que lhe foi conferida, a fonte, eternizada como do Sapal, apresenta-se, ainda nos dias de hoje, na Praça Teófilo Braga, como um monumento pela sua exaltação tanto do poder concelhio como da coroa.

A prová-lo estão três esferas armilares de grandes dimensões e, num outro corpo, armas de Portugal ladeadas por anjinhos. Estas figuras são réplicas, pois as originais – escudo, coroa e anjo –, em pedra calcária, foram destruídas durante o desenrolar da Implantação da República por representarem simbologia monárquica e clerical. Na época, os monárquicos consideraram tal acto como de vandalismo contra o património, enquanto para os republicanos simbolizou a libertação.

O emblemático Chafariz do Sapal, construído em 1697, acabou por ser transferido. Os problemas e as dificuldades na circulação de trânsito causada pela centralidade da fonte na Praça de Bocage motivaram a mudança, em 1937, para a Praça Teófilo Braga.

O Chafariz do Sapal, supostamente desenhado por Francisco da Silva Tinoco, o arquitecto régio de D. Pedro II, foi custeado pela Câmara Municipal, constituindo uma importante obra no abastecimento de água à cidade. Tal como séculos antes, o Aqueduto dos Arcos, edificado no reinado de D. João, o chafariz foi de extrema importância para as necessidades do povo setubalense.

Do chafariz transparece também a alusão ao comércio marítimo, reforçando a importância económica de Setúbal. Navios da época estão representados em dois baixos relevo, na porta de acesso ao interior da fonte.

O chafariz foi perdendo a utilidade inicial mas ganhou uma importância histórico-cultural. A mudança para a Praça Teófilo Braga adivinhou não só as exigências do desenvolvimento urbanístico, com aspectos como a circulação automóvel, como também causou uma perda material. Se a carroça deu lugar ao automóvel, como por ironia o bebedouro para animais que se encontrava na parte posterior do chafariz também desapareceu.

 

 

tesouros