22 de Agosto de 2017
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As janelas que Zeca abriu

Progressista e democrata. A garra do fascismo nunca conseguiu calar a voz universal de José Afonso. Os relatórios da polícia política PIDE/DGS, guardados na Torre do Tombo, traduzem a perturbação que o cantor da revolução causou na ditadura. Setúbal, onde viveu os últimos vinte anos de vida, é a cidade que marca o período central da luta do poeta e músico por uma sociedade livre e justa.

José Afonso, preso na Cadeia de Caxias, é de novo interrogado por um inspetor. Estão mais dois agentes na sala. Os interrogatórios da polícia política do fascismo são longos e intimidatórios. Muitos envolvem espancamentos e tortura. Responde ao que lhe é perguntado e deixa claro que politicamente é “de tendência progressista” e que se enquadra “nos ideais democráticos”.

Os documentos dos Arquivos da PIDE/DGS, guardados na Torre do Tombo, em Lisboa, revelam que o poeta e músico, sem ligações a “organizações ilegais de caráter político”, assume a sua posição ideológica de homem “adverso das instituições vigentes”. No interrogatório de 15 de maio de 1973, e nos restantes, reconhece que colabora “na chamada oposição ao regime vigente”.

Duas semanas antes, a 30 de abril, por ordem do inspetor Mortágua, da Direção-Geral de Segurança (DGS), a sucessora da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), é detido em casa, em Setúbal, às 19h30, para ser conduzido a Caxias, onde entra às 23h50, “por lhe ser imputada a prática de factos suscetíveis de integrar o crime contra a segurança do Estado”.

É a primeira vez que passa uma noite na temível cadeia, sobre a qual já falara na canção “Por Trás Daquela Janela”, de 72, depois de a 4 de outubro de 1971 ter estado lá, para, após averiguações relacionadas com a sua participação na angariação de fundos de auxílio às famílias dos presos políticos, que assume, sair horas depois.

Um relatório da PIDE/DGS explica o motivo da libertação: “Os autos não contêm matéria bastante para que possa pronunciar-se quanto à legalidade da detenção do arguido (…) e, muito menos, quanto à necessidade ou não da manutenção da mesma”. O processo fica a aguardar “produção de melhor prova.”

Pedido de livros e gravador

É em 1973, a um ano da Revolução dos Cravos, que José Afonso fica preso na Cadeia de Caxias, 19 dias, sendo sujeito a diversos interrogatórios, em que é interditada a presença de advogado, substituído por duas testemunhas, agentes da PIDE/DGS, bem como a um “auto de perguntas”, realizado no dia seguinte ao da detenção, no simbólico 1 de maio, em que se assume “progressista e democrata”.

É-lhe apreendida em casa grande quantidade de documentos de caráter político, como petições dirigidas ao chefe de Governo, Marcelo Caetano, pela libertação de todos os presos políticos, regresso dos exilados e reintegração dos funcionários demitidos, contra a guerra em África e pela autorização de recenseamento eleitoral dos jovens maiores de 18 anos. Além de textos sobre os direitos das mulheres, relatórios do Congresso da Oposição Democrática e edições de publicações do Partido Comunista português e galego.

Na cadeia, faz ginástica para tonificar o corpo e a mente e escreve alguns dos poemas de canções do álbum “Venham Mais Cinco”, que sairá no final desse ano, como o “Era Um Redondo Vocábulo”.

Mais nada lhe é permitido, apesar de requerimentos dirigidos, a 9 de maio, ao diretor da DGS, documentos também guardados nos Arquivos da PIDE, a pedir que lhe sejam facultados livros de filosofia, poesia, ficção e ensaio crítico para a sua “formação cultural” e, “não possuindo conhecimentos musicais teóricos para a escrita de carateres musicais”, um gravador de cassetes para “registo de eventuais composições”. Reclama ainda que lhe sejam concedidas visitas e a presença do seu médico psiquiatra por ter suspendido um tratamento administrado “na sequência de neurose ansiosa”.

Uma centena de intelectuais dirige uma petição a Marcelo Caetano a contestar a prisão de José Afonso e o caso é noticiado no estrangeiro, nomeadamente no influente jornal britânico “The Guardian”.

A resposta da PIDE/DGS aos requerimentos de José Afonso vem a 21 de maio. Diz que as pretensões já não têm efeito porque, dois dias antes, fora concedida liberdade provisória ao arguido, mediante uma caução de 10 contos, mais 310 escudos de imposto de justiça.

O mandado de soltura é motivado “por inexistência de elementos indiciários suficientemente comprovativos de que [José Afonso] tenha atuado contra a segurança do Estado, embora se admita que, com o tempo, tais elementos sejam trazidos ao processo”. Tal como aconteceu com a detenção em outubro de 71, os autos ficam “a aguardar melhor prova”.

Setúbal no centro da ação

As canções de Zeca Afonso são alegorias à liberdade e murros no estômago do fascismo. O músico chega a Setúbal no final de 1967, vindo de Moçambique, com passagem por Faro. O posto de vigilância local da PIDE envia, a 4 de outubro, um relatório para Lisboa a alertar que o poeta e músico estivera a passar férias nessa cidade algarvia, onde foi professor no início dos anos 60, “constando que ia lecionar para o Liceu de Setúbal”. E avisa que ele é “a favor da independência das províncias ultramarinas portuguesas” e que quando lecionou em Faro acompanhou “com indivíduos com ideias comunistas”.

Nesta altura já tinham sido editadas, no disco “Baladas de Coimbra”, de 1963, as canções “Menino do Bairro Negro” e “Os Vampiros”, que, particularmente esta, além de constituírem uma declaração explícita sobre o estado do País, criam as bases de uma intervenção política musical.

Em Setúbal, Zeca é de imediato contactado por associações estudantis e religiosas progressistas, por organizações políticas na clandestinidade e por outros grupos. Todos conhecem a sua obra e querem vê-lo envolvido nas suas causas. E ele aceita.

É aqui que, decisivamente, a sua ação assume uma dimensão que se estende a tudo quanto é contrário à ditadura. O posto de vigilância da PIDE/DGS começa a expedir relatórios para a sede, em Lisboa, a informar que José Afonso, além de “bastante conhecido pelas canções subversivas que compõe e interpreta”, está “referenciado em inúmeras reuniões clandestinas”, “desenvolve larga atividade nos meios ‘culturais’, ‘democráticos’, etc., desta zona e de todo o País” e “recebe em casa muitos indivíduos estranhos, alguns deles estrangeiros, principalmente espanhóis”.

Expulso do ensino, sem rendimento fixo, vive graças a um contrato que celebra, em 1968, como agente de promoção artística, com a empresa Arnaldo Trindade, Lda, com sede no Porto, proprietária da editora Orfeu, que passa a gravar-lhe os discos, o primeiro logo nesse ano, “Cantares do Andarilho”.

Um despacho da PIDE/DGS emitido de Setúbal no início dos anos 70 faz uma descrição sumária de um dia de José Afonso, na sequência da vigilância movida por informadores, os chamados “bufos”: “Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de ‘jovens’, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio. À noite frequenta assiduamente o Círculo Cultural de Setúbal, onde se reúne com outros elementos de ideologia semelhante à sua.”

Voz contra a proibição

Zeca Afonso está proibido de atuar em público em todo o território nacional e de viajar para as colónias, mas insiste em não cumprir essas determinações para continuar a difundir a mensagem universal de sonho de liberdade.

No Círculo Cultural de Setúbal, a 22 de maio de 1971, participa numa sessão de variedades, um “espetáculo sem licenças e não policiado”, o que irrita a polícia política de Marcelo Caetano, porque nem o Governo Civil nem a PSP intervém.

“É de notar que a Polícia de Segurança Pública, sempre tão pronta em intrometer-se em assuntos da nossa competência, faz sempre por ignorar a presença e atuação dos vários elementos comunistas e desafetos que têm atuado naquele Círculo (…), nunca informando superiormente qualquer atividade que tenha lugar naquela associação”, queixa-se o posto de vigilância de Setúbal.

O Círculo Cultural de Setúbal, fundado em 1969 por um grupo de intelectuais contra o regime, está, à semelhança do Clube de Campismo de Setúbal, sob vigilância apertada do fascismo. A 23 de maio de 1970, o colaborador da PIDE “Manuel Afonso” é convidado aí, por um grupo em que se encontra Zeca Afonso, a participar na madrugada seguinte numa ação de pintura de paredes na cidade, a tinta preta, com as frases “libertação dos presos políticos” e “os democratas exigem a rápida libertação dos presos políticos”.

Lutador até ao fim

Os movimentos do cantautor na rua são totalmente controlados e, sempre que se justifica, transformados em boletins da PIDE. Onde está, com quem, o que faz, o que diz, o que ouve, o que canta, em que carro vai.

Os concertos são muitas vezes impedidos e, quando permitidos, o alinhamento musical é sujeito a controlo prévio das autoridades, que diz o que pode ser tocado, mas José Afonso, com outros cantores de intervenção, leva a sua mensagem a muitos pontos do País. E também da Europa. A Paris, Madrid, Barcelona, Galiza, Londres, Bruxelas.

A 10 de novembro de 1970, participa, com Sérgio Godinho, José Mário Branco e Luís Cília, num espetáculo na “Mutualité”, sala mítica de Paris, em que é confrontado com um folheto de extremistas de esquerda, distribuído à entrada, que o acusa de colaborar com o sistema e de, com isso, conseguir viver em Portugal e continuar a gravar discos.

José Afonso não se contém e desafia os opositores, espalhados pela sala, apostados em boicotar o concerto: “Quanto ao tal papel, estou disposto a fornecer indicações mais diretas àqueles que esperam que os cantores façam a revolução enquanto eles estão sentados, talvez no Café Luxemburgo.”

Aos aplausos seguem-se algumas “bocas”, a que Zeca responde: “Não vejo a tua cara, pá. Je vois pas ton visage. Tu vois le mien, non?”, o que gera confrontos físicos no público.

Noutro espetáculo, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 29 de março de 1974, de entrega de prémios da Casa da Imprensa, com José Afonso e os outros cantores de intervenção cantam com o público “Grândola, Vila Morena”. A canção que Portugal vai ouvir menos de um mês depois, anunciando o sucesso do golpe militar que derruba o fascismo.

A democracia não se traduz num baixar de braços contra as injustiças sociais. Esta é uma luta de Zeca Afonso até ao fim da vida, a 23 de fevereiro de 1987. Faz agora 25 anos.

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