17 de Outubro de 2017
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Desassossegos

Neste conjunto de textos tentamos homenagear José Afonso através das recordações de alguém que foi – é – símbolo do desassossego e do sonho.

Essas características encontramo-las seja por que ângulo o olhemos, independentemente da faceta em que o observemos: estudante, professor, poeta, compositor, lutador pela liberdade.

Fragmentos dessas características foram sublinhadas nestes textos. Foi forma de o lembrarmos, no ano em que passa o 25.º aniversário da morte dele. Ocorrida em 23 de fevereiro de 1987. No dia seguinte, Setúbal vestiu-se de saudade no adeus que lhe quis dizer. Como em vida, também na morte não quis ser motivo de divisão. Deixou um desejo: a urna coberta com pano vermelho. Sem dísticos. A transportá-la, amigos. Independentemente da forma de cada um pensar e estar.

Apesar das faturas que pagou por ter sido como foi, nunca lastimou atitudes tomadas. Um dia, em balanço de vida, disse: “Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz.”

“Aquilo” foi o aluno desajustado, desde os primeiros anos até à conclusão da Faculdade. Porque os professores não lhe entendiam os sonhos, que o distraíam nas aulas. Por essa razão, na Primária, levou “enxurros de porrada” e foi pendurado pelas orelhas. No Liceu, “era constantemente expulso das aulas”. Na preparação da tese da licenciatura descobriu em Graham Greene uma “filosofia que estava, de certa maneira, contida em Sartre!”. O examinador disse-lhe: “O senhor, pelo que li, apresenta inequívocos indícios de poeira mental.” Passou, mas mandou às urtigas as obras filosóficas.

Mas foi, também, o professor – expulso do ensino pelo Estado Novo – o lutador pela liberdade – distribuiu panfletos e o manual de guerrilha da LUAR (organização armada contra o regime salazarista) e foi preso pela polícia política – o cantor interventivo. Antes e depois de Abril.

José Afonso foi, ainda – uma vez mais, antes e depois de abril –, militante de causas: apoiou Humberto Delgado e Otelo, solidarizou-se com os presos do PRP (Partido Revolucionário do Proletariado), acusados de assaltos a bancos, e com o MPLA, em plena guerra de Angola.

Modesto, recusando, sempre, pôr-se em bicos dos pés, afirmou, em 1972, à extinta revista “Vida Mundial”: “Só quero ter o meu tamanho real.” Sobre a forma de estar na vida, declarou, em 1985, ao também extinto semanário “Se7e”: “O que é preciso é ter desassossego.”

Recordar José Afonso
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