22 de Outubro de 2017
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Foi há 25 anos

Na tarde daquela terça-feira, a 23 de fevereiro de 1987, Setúbal cobriu-se de dor para homenagear a memória de José Afonso, falecido nessa madrugada no Hospital de S. Bernardo.

Numa manifestação jamais vista na cidade, parecia que todos os caminhos iam dar à Escola Secundária de S. Julião, hoje Sebastião da Gama, onde o corpo esteve, antes de seguir para o Cemitério da Senhora da Piedade, para o último adeus de amigos e admiradores.

Mais de 30 mil pessoas participaram no cortejo fúnebre, que demorou cerca de duas horas a percorrer a pequena distância até ao cemitério, com a urna, coberta com um pano vermelho sem qualquer dístico, como ele pedira, a ser transportada por alguns dos companheiros de muitos sonhos e cantigas, como Júlio Pereira, Sérgio Godinho, Francisco Fanhais e José Mário Branco.

Para trás ficara toda uma vida de luta pela liberdade e solidariedade feita de canções, gestos e atitudes que não raro lhe valeram, no tempo da ditadura, a perseguição, o desemprego e a cadeia.

Vinte anos antes, regressado a Portugal, vindo de Moçambique, onde estivera a dar aulas, o professor José Afonso chegou a Setúbal para lecionar no Liceu. Esgotado, magoado com o que vivera naquela antiga colónia – “O meu batismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido”, disse mais tarde –, adoeceu e foi internado na Casa de Saúde de Belas.

Duas dezenas de dias depois, teve alta, mas estava desempregado. Tinha sido expulso do ensino oficial. Passou a viver de explicações. As cantigas, principalmente nas sociedades de recreio da Margem Sul, e os contactos com grupos de estudantes e de católicos progressistas, bem como com o movimento sindical intensificaram-se.

A polícia política do regime vigiava-o de perto, cancelava-lhe espetáculos, proibia-lhe interpretar certas canções, chamava-o amiúde para interrogatórios. Em abril de 1973, foi preso pela última vez. Mandado para Caxias, onde esteve 20 dias, escreveu “Era Um Redondo Vocábulo”.

Um ano depois, sensivelmente, pouco tempo antes da queda do regime ditatorial, participou, no Coliseu, em Lisboa, num espetáculo organizado pela Casa da Imprensa. A censura foi perentória: não podia cantar “Venham Mais Cinco”, “Menina dos Olhos Tristes”, “A Morte Saiu à Rua” e “Gastão Era Perfeito”. Autorizou, porém, “Grândola Vila Morena”, com que o concerto terminou.

Em 29 de janeiro de 1983, já bastante debilitado, atuou pela última vez em público, na mesma sala. Pouco mais de quatro anos depois, morria em Setúbal, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

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