17 de Dezembro de 2017
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Maio Maduro

“Cantigas do Maio” – que inclui “Grândola, Vila Morena” –, considerado em 1978, pelo extinto semanário “Sete”, o melhor trabalho discográfico de sempre da música popular portuguesa, foi gravado, sete anos antes, em França.

A escolha foi de um grupo de 25 jornalistas e artistas e o disco, um LP 33 rpm, gravado em Herouville, “Cantigas do Maio”, na opinião do jornalista Viriato Teles, que escreveu um livro sobre o cantor – “As Voltas de um Andarilho” – é o “mais histórico e o mais referencial de todos os discos da música popular portuguesa”.

Gravado em tempo recorde – de 11 de outubro a 4 de novembro de 1971 –, o trabalho, além da qualidade musical, apresenta alguns dos mais belos e corajosos poemas de José Afonso, revelando, uma vez mais, a determinação do cantor no combate à ditadura.

“Cantar Alentejano”, dedicada a Catarina Eufemia, é reflexo disso. Sem usar as entrelinhas, tão utilizadas, então, para iludir a censura, Zeca sequer omite o nome da ceifeira – “Chamava-se Catarina/ O Alentejo a viu nascer/ Serranas viram-na em vida/Baleizão a viu morrer” – ao denunciar o crime da GNR. Mas canta, também, promessa – “Acalma o furor campina/ Que o teu pranto não findou/ Quem viu morrer Catarina/ Não perdoa a quem matou” – e, acima de tudo, esperança: “Aquela andorinha negra/ bate as asas p’ra voar/ Ó Alentejo esquecido/ Inda um dia hás de cantar.”

Em “Maio Maduro Maio”, antecipa o sabor da liberdade – “Anda ver, maio nasceu/ Que a voz não te esmoreça/ A turba rompeu” – mesmo que, em “A Mulher da Erva”, não consiga reprimir a angústia da espera: “Canta rola/ Tua amargura/ Manhã moça/... Nunca mais vem.”

No “Coro da Primavera”, porém, usa a canção como aviso aos opressores – “Os velhos tiranos/ De há mil anos/ Morrem como tu” – e aos oprimidos – “Põe-te em guarda/ Que te vão matar” – e volta a antever a liberdade: “Ergue-te ó sol de verão/ Somos nós os teus cantores/ Da matinal canção/ Ouvem-se já os rumores/ Ouvem-se já os clamores/ Ouvem-se já os tambores.”

Mas é “Grândola, Vila Morena” – na qual os censores não viam subversão e, por isso, escolhida para senha do movimento dos capitães para o derrube da ditadura, em 25 de abril de 1974 – que ficará como marco histórico da luta antifascista, em Portugal.

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