23 de Outubro de 2017
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O aluno inadaptado

José Afonso teve, sempre, enquanto aluno, dificuldade em adaptar-se às regras rígidas, violentas mesmo, do ensino no período da ditadura.

O início da escola, aos 7 anos, foi recordado, um dia, pelo autor de “Grândola, Vila Morena” como dos “aspetos mais negativos” da vida dele.

A José Salvador (“José Afonso – O Rosto da Utopia” – ed. Terramar) disse: “O professor dava-me enxurros monumentais de porrada por causa da minha distração.”

No final da instrução primária, em Moçambique, sob o mesmo pretexto, outro professor pendurava-o pelas orelhas. Tudo isto fez com que ficasse com a “pior impressão possível da escola primária”, uma “instituição tenebrosa”.

A “desadaptação à escola” não terminou com a entrada no ensino secundário. No Liceu, em Coimbra, “era constantemente expulso das aulas”. Apenas no 5.º ano começou a adaptar-se, mas nunca completamente. As cantigas, a boémia, o futebol contavam mais do que os livros. Daí, os dois chumbos.

O curso de Histórico-Filosóficas foi feito aos poucos, como aluno voluntário, quando já era casado, pai e professor de liceu.

Até a tese da licenciatura foi conseguida graças ao acaso que lhe cruzou o caminho com um antigo colega de Faculdade.

A José Salvador, contou: “Um dia encontrei o Monteiro [Fernando Monteiro, que foi professor em Setúbal – NR], meu colega no Colégio de Mangualde, que me disse: ’Eh, pá, tens que fazer a tese!’ Respondi-lhe: ‘Falta-me o lapisito!’ E o gajo deu-me um lápis pequenino.”

A verdade é que, a seguir, leu “L’Étre et le Néant”, de Sartre, confessando que pouco mais lera do filósofo francês.

Em contrapartida devorou Graham Greene, descobrindo na obra do escritor britânico uma “filosofia que estava de certa maneira contida em Sartre!”.

Dessa “salada dos diabos” fez a tese: “Implicações substancialistas na filosofia sartriana.”

Com ela, quis provar que Sartre “não tinha feito mais do que continuar a tradição” que rejeitava.

Zeca julgou que ia “fazer um furor do caraças”. O examinador, um padre – que o “derreteu de alto a baixo” – pensou o contrário

Ainda antes de começar a defesa da tese, o padre disse-lhe: “O senhor, pelo que li, apresenta inequívocos indícios de poeira mental.”

José Afonso foi aprovado. Filosofia é que nunca mais leu.

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