24 de Outubro de 2017
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O inconformado

José Afonso – cantautor, pedagogo, lutador pela liberdade, praticante da solidariedade – foi, acima de tudo, um inconformado, contestatário, buscador da utopia, mesmo sabendo-a inatingível.

O institucional incomodava-o. Por isso, afrontava-o. Não raro, desprezava-o, ridicularizava-o, tal como a certas tradições e “tradicionalistas”. Sentido crítico era faculdade que possuía, sarcasmo arma que utilizava amiúde.

Mesmo Coimbra – onde estudou e fez amigos, como aconteceu por todo o lado – não lhe escapou na hora de descobrir que, afinal, não tinha assim tanto encanto. Imaginara-a “além das suas reais dimensões”. No fundo, “era uma chateza do caraças”, uma “cidade muito mais fechada”, “muito mais prosaica do que possa parecer”.

Dos “rituais” académicos também se fartou, o que o fez passar a frequentar, acintosamente, o Ateneu: “Quando rejeitei a tradição académica e comecei a lidar com outros gajos, com os ‘futricas’.”

Não admira, pois, que o serviço militar obrigatório – 1953-1955 – lhe tenha desagradado. De Mafra, escreveu ao pai: “A espingarda que me foi confiada e que tenho de tratar como se tratam os cavalos de corrida é um mistério intricado para mim, com culatra, cursores, percutores, cavilhas de segurança e o diabo a sete.”

Zeca vingou-se, mais tarde, da instituição. Num espetáculo, em Tancos, para soldados e oficiais, cantou “Ronda dos Paisanos”. Só ficaram os primeiros. Os segundos foram-se embora.

A passagem pelo Algarve, onde lecionou, também lhe deixou marcas e mereceu reparos. Na Fuzeta, o namoro com Zélia, com quem veio casar, era mal aceite: “Eu era encarado como um tipo que vinha do exterior, fora do sistema deles e que lhes escapava.”

As pessoas da Fuzeta, garantia, “tinham um sistema de sinalização de tal maneira montado” que qualquer contacto com a Zélia “era imediatamente comunicado por extensa rede de bufos voluntários”.

As digressões da Tuna e do Orfeão Académico a África mereciam-lhe, igualmente, críticas: “A burguesia local só nos convidava para os copos (...) como comparsas das suas confissões acerca do seu passado coimbrão. Quanto à verdadeira realidade africana, nada.” Ainda sobre essas viagens, a causticidade dirigida à forma como os estudantes eram recebidos: “Envolvidos numa capa, toda a gente nos achava muita graça e, por vezes, até nos cediam, para fins matrimoniais, as suas filhas.”

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