16 de Dezembro de 2017
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O professor do diálogo

José Afonso começou a ser professor ainda estudante, primeiro, em Coimbra, dando explicações, depois, em Mangualde, num colégio – onde chegou a lecionar de capa e batina –, atividade que exerceu enquanto o Estado Novo lhe permitiu.

Se como cantor foi um andarilho, como docente não lhe ficou atrás, nutrindo por ambas as atividades a mesma paixão que punha em tudo o que fazia.

De início, ensinar foi forma de sustento – para ele, para os filhos, para a mulher – mas depois, também, paixão, nunca desfeita, pese as barreiras de mentalidades que, não raro, encontrou.

Em entrevista a José Salvador – publicada em “Livra-te do Medo – Estórias & Andanças de Zeca Afonso” (Edição Terramar), incluída, igualmente, em “José Afonso, o Rosto da Utopia” (Ed. Regra do Jogo), do mesmo autor – recordou que em Mangualde quis “assumir a função de professor, que não tinha nada a ver com o tradicional”, com “grandes dificuldades em conciliar os dois aspetos: disciplina e diálogo”.

Neste colégio, como noutros estabelecimentos de ensino da época, ser professor não era apenas ensinar, mas “vigiar o aspeto sexual-amoroso dos alunos e, nomeadamente, impedir que houvesse troca de bilhetes entre rapazes e raparigas”.

A experiência em Mangualde – onde a “repressão era feita a pedido dos pais que exigiam da empresa-colégio uma determinada eficiência” – não lhe alterou a maneira de encarar o ensino.

Mais tarde, no Algarve, encontrou a compensação. À noite, teve alunos que aceitavam os métodos dialogantes. Tornou-se amigo deles e companheiro na luta contra a ditadura. De dia, crianças que o cativavam com os “seus improvisos, os seus desenhos animistas”.

No primeiro caso, a experiência “constituiu o antídoto” ao “vivido em Coimbra” e Mangualde. No segundo, algo “altamente estimulante” para o trabalho musical. Ainda deu aulas em Aljustrel e Alcobaça.

Porém, África – vivida na infância e adolescência, mas, também, como adulto integrado no Orfeão e na Tuna Académica – teimava em cruzar-se-lhe no caminho: em 1964 foi para Moçambique, onde os dois filhos viviam com os pais dele. Esteve lá cinco anos. Considerou a experiência positiva – “o meu batismo político foi em África” – mas psicologicamente arrasante.

Regressado a Portugal, colocaram-no no Liceu de Setúbal. Não chegou a aquecer o lugar. Pouco tempo depois, com um esgotamento, esteve internado numa clínica. Ao ter alta, soube que fora expulso do ensino. Em 1983, já doente, era readmitido e colocado na Escola Preparatória de Azeitão.

Apesar das contrariedades que encontrou por querer ser um professor que não ensinava só o que vinha nos livros, José Afonso disse um dia: “Durante o exercício de professorado colhi a minha experiência de vida mais importante.

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