20 de Outubro de 2017
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Técnica própria

José Afonso, principalmente após o desaparecimento físico, ocorrido há 20 anos, é, por norma, recordado como cantor, símbolo de Abril, lutador pela liberdade, raramente como poeta, menos, ainda, como músico, compositor.

A verdade é que, como escreveu João Freitas Branco, José Afonso, na “sua humildade e simplicidade”, que “tocava viola razoavelmente mal e não sabia uma nota de música, criou uma obra e deixou um rasto de génio”.

O musicógrafo, contrariando opinião generalizada, garante que é “evidente que a arte poético-musical de José Afonso não pertence, nem sequer minimamente, à esfera do ligeiro”.

Por isso, aos “encartados arrumadores de música” deixou um aviso: “Se persistirem (...) em recusar à obra de José Afonso um lugar na categoria de música ‘clássica’, que se apressem a rever a definição desta, antes que, por completo, os deixemos de tomar a sério.

Carlos Sequeira, professor de música do Conservatório Regional de Setúbal, que chegou a conviver com José Afonso, corrobora estas ideias: “O Zeca foi, realmente, um génio na arte do som e da criatividade, exemplo de que possuir técnica não é determinante para ser um bom músico.” Por isso, não perde uma oportunidade em falar dele aos alunos, apontando-o como “exemplo em todos os sentidos”, uma “inspiração da natureza”.

“O Zeca nasceu inspirado”, diz, enaltecendo, também ele, a humildade do autor de “Grândola, Vila Morena”, que “recorria a outros para melhorar o fruto do seu talento, como o fez, por exemplo, com José Mário Branco, Fausto, Júlio Pereira”, que colaboraram em alguns trabalhos, quer na direção musical, quer em arranjos.

O maestro António Vitorino de Almeida, por sua vez, defende que Zeca “sabia a música de que necessitava para defender os seus conceitos”, já que “poucos como ele foram capazes de tomar conhecimento do que podiam para fazerem depois o que queriam”.

Para o maestro, “não se trata de saber solfejo, leis de harmonia ou normas de contraponto, nem mesmo de “conhecer muitas posições na guitarra”, pois Zeca “nunca precisou disso”.

António Vitorino de Almeida sublinha que do que “ele [José Afonso] nunca prescindiu foi de criar uma técnica própria, foi de evoluir artisticamente até ao ponto de ser, para todos os efeitos, um Mestre”.

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