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requalificação 11 de Junho de 2015
Obras devolvem monumento à cidade

O Convento de Jesus, monumento nacional encerrado ao público há mais de duas décadas, é devolvido a Setúbal após a conclusão da primeira fase de intervenções de reabilitação, o que permite a reabertura parcial no dia 20.

As obras, iniciadas no final de 2012, foram impulsionadas pela Câmara Municipal de Setúbal, que, ao chamar a si a responsabilidade de travar a degradação do imóvel do século XV, assumiu as contrapartidas financeiras que deveriam ser suportadas pelo Estado, proprietário do património, para reabilitar o edifício.

A estabilização, reconstrução, renovação e remodelação do Convento de Jesus foram os principais objetivos da primeira fase de intervenções, que incluiu a substituição da totalidade do telhado, a restauração das paredes de pedra e de alvenaria, a par da proteção geral, através da criação de sistemas de drenagem no alçado norte.

“A Câmara Municipal não podia deixar que este património definhasse de vez. Assim, assumiu a totalidade dos encargos que eram da responsabilidade do Estado português”, salientou a presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, no dia 11, em visita às obras de requalificação do Convento de Jesus.

O restauro completo da ala poente, para instalação de uma galeria expositiva do Museu de Setúbal, é uma das ações de maior visibilidade no requalificado Convento de Jesus, imóvel que constitui um dos principais marcos do período Manuelino em Portugal e classificado como Monumento Nacional desde 1910.

O arquiteto Carrilho da Graça, autor do projeto de reabilitação global do imóvel e que conduziu a visita guiada de hoje de manhã, afirmou que o Convento de Jesus “exigia uma obra urgente que permitisse estancar o processo de ruína” do edifício, que classifica como “lindíssimo e com uma série de espaços marcantes”.

As intervenções realizadas ao longo de mais de dois anos, “implementadas com um conceito de simplicidade e que aproximam o edifício da conceção original”, vincou o arquiteto, centraram-se na cobertura, nos alçados e, posteriormente, em ações de consolidação estrutural.

Entre os trabalhos executados destaca-se a colocação de uma cobertura totalmente em madeira, assim como a reconstrução dos pavimentos dos pisos superiores, igualmente com vigas em madeira e tabuado, soluções que permitiram libertar peso do imóvel e assegurar a integridade estrutural.

Na ala poente, além da recuperação de um vão de escadas e de dois tetos, destaque para a criação da primeira galeria expositiva do Convento de Jesus, projetada com “linhas simples” para “servir de pano de fundo às obras de arte” que integram uma exposição temporária, explicou Carrilho da Graça.

A mostra, com peças de várias coleções do acervo do Museu de Setúbal, numa espécie de roteiro cronológico espaciotemporal entre o final do século XIV e o século XX, inclui, entre outras, a pintura “Bocage e as Musas”, de Fernando Santos, assim como a obra “Calvário – Cristo Cruxificado, Nossa Senhora, São João e Santa Madalena”.

Os trabalhos dinamizados na primeira fase de reabilitação do Convento de Jesus asseguraram ainda a colocação de um elevador interior, a construção de um novo edifício técnico e a recuperação da zona do Claustro e de outras áreas do convento, nomeadamente a Sala do Capítulo.

A Sala do Capítulo, criada num conceito arquitetónico do estilo do Alto Renascimento, entre os séculos XVI e XVII, com paredes forradas a azulejo e um teto em madeira pintada, “é composta por elementos muito fortes” e que “contrastam com a maioria dos espaços do Convento de Jesus”, reforçou Carrilho da Graça.

Destaque ainda para um conjunto de trabalhos de restauro realizados no interior do Convento de Jesus, nomeadamente de acabamentos dos espaços cobertos, como telhas cerâmicas, frescos e pinturas em madeira, intervenções asseguradas por uma empresa especializada.

Com a primeira fase das obras foi também concretizada uma ação de proteção contra inundações, uma vez que o Convento está situado num ponto baixo da cidade. Além da impermeabilização das lajes, foi criado um muro em redor do imóvel para desviar águas pluviais e instalada uma estação de bombagem.

A primeira fase de reabilitação do imóvel integra o projeto “Recuperação e Valorização do Convento de Jesus”, incluído no programa ReSet – Regeneração Urbana do Centro Histórico de Setúbal, candidatura liderada pela Câmara Municipal de Setúbal que incluiu a execução de um conjunto de obras estruturantes para a cidade.

O investimento no Convento de Jesus, da ordem dos 3,6 milhões de euros, foi comparticipado por fundos comunitários com uma taxa de 65 por cento através do PORLisboa – Programa Operacional Regional de Lisboa, ao abrigo do QREN – Quadro de Referência Estratégico Nacional, com os restantes encargos assumidos pela Autarquia.

O Município chamou a si a liderança deste processo após receber, por protocolo, a posição de beneficiário da candidatura que pertencia ao IGESPAR, por este instituto da administração central, atualmente integrado na Direção-Geral do Património Cultural, alegar incapacidade orçamental.

Neste âmbito, a Câmara Municipal de Setúbal assegurou, num protocolo com a Direção-Geral do Património Cultural em fevereiro de 2012, a cedência temporária do Convento e da Igreja de Jesus e respetivos bens culturais para a instalação do Museu de Setúbal por um período de vinte anos, renováveis.

Para garantir a renovação total do Convento de Jesus e a implementação integral do projeto de arquitetura proposto por Carrilho da Graça, até 2017/2018, a Câmara Municipal de Setúbal tenta garantir junto do Governo os fundos nacionais e comunitários necessários, no valor global de 6 milhões de euros.

“Foi importante arrancar com a primeira fase de intervenções mas é preciso mais. Reclamamos justiça para este edifício e exigimos ao Governo que assuma a responsabilidade por este património que é sua propriedade”, realçou a presidente da Autarquia, Maria das Dores Meira.

A autarca reforçou que o Governo “deu a palavra à Europa Nostra [organismo europeu que integrou o Convento de Jesus na restrita lista dos sete monumentos mais ameaçados da Europa] de que já tinha o montante necessário para avançar com a reabilitação. Até agora, nada”.

A inclusão do Convento de Jesus na lista de monumentos ameaçados foi decidida por unanimidade em 2013, por altura do 50.º aniversário daquele organismo de defesa do património. A Europa Nostra está associada ao Banco Europeu de Investimento, que disponibiliza linhas de crédito a taxas reduzidas para projetos de recuperação.

A segunda fase de obras prevê a conclusão da recuperação das alas norte e leste do Convento e a reabilitação da estrutura da Igreja de Jesus e da respetiva cobertura, assim como a construção de um edifício de apoio para acomodar funções científicas, técnicas e administrativas do Museu de Setúbal, com mil metros quadrados.

A recuperação total do Coro Alto, da estrutura ao teto, bem como da torre sineira é outro dos objetivos programados na segunda fase de intervenções, que inclui a beneficiação da Praça Miguel Bombarda, com a criação de um jardim, e a instalação de um equipamento térmico na totalidade do Convento.

Com as intervenções concluídas será possível exibir uma seleção dos cinco mil objetos e peças de arte que compõem o Museu de Setúbal. Os artigos ficarão expostos maioritariamente no primeiro piso em torno da zona dos claustros, solução que cumpre todos dos critérios de segurança e mobilidade para todos exigidos em equipamentos públicos.

Maria das Dores Meira assegurou que, à medida que as verbas necessárias forem asseguradas, as obras no Convento de Jesus continuam a avançar, com prioridade aos espaços do Coro Alto e da Igreja de Jesus, que continuará a acolher eventos especiais ocasionais e serviços religiosos.

O Convento de Jesus, situado no interstício das muralhas quatrocentistas e seiscentistas, é a principal referência patrimonial de Setúbal, beneficia de classificação como Monumento Nacional desde 1910. Fundado em 1490, acolhe, desde o início da década de 60 do século XX, as instalações do Museu de Setúbal.

Programa da inauguração

O Convento de Jesus reabre parcialmente ao público a 20 de junho, com uma nova galeria expositiva com peças do acervo do Museu de Setúbal e após a conclusão da primeira fase de reabilitação do imóvel, numa cerimónia a realizar a partir das 15h30 com vários momentos culturais.

O programa inclui, às 15h45, um apontamento musical pela Academia de Musica e Belas-Artes Luísa Todi, a que se segue uma cerimónia protocolar de descerramento da placa de inauguração e um período de alocuções de responsáveis das várias entidades envolvidas no projeto.

Uma visita-guiada ao Convento de Jesus, com passagens pelos principais espaços intervencionados, assim como à nova galeria de exposições, decorre às 16h15. A cerimónia prossegue às 17h00, com um momento musical dinamizado pelo Conservatório Regional de Setúbal.

A abertura ao público, programada para as 18h00, inclui um apontamento musical pelo tenor João Mendonça, a que se segue, uma hora depois, um concerto com a participação do violoncelista Pavel Gomziakov, que interpreta a Suite n.º 6 de J. S. Bach.

A participação na cerimónia é livre, mediante levantamento no próprio dia do ingresso na receção do Convento de Jesus, localizada na ala poente. No dia seguinte, a 21, o Convento de Jesus pode ser visitado gratuitamente, no horário das 10h00 às 18h00.

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