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As origens francesas

Quando veio de França para Portugal, o avô do poeta, Gil l’Hedois du Bocage, já era viúvo. Aos 60 anos conheceu, em Setúbal, a jovem Clara Francisca Joaquina Xavier Lustoff. Casaram e tiveram duas filhas. Desta união nasceu a mãe de Elmano Sadino.

Já pensou nas origens do apelido Bocage? Segundo vários historiadores, esse sobrenome era muito comum em França e denotava uma certa nobreza. Ainda hoje dá nome a uma bucólica região da Normandia.

Mas recuemos aos antepassados de Manuel Maria Barbosa du Bocage. Gil l’Hedois du Bocage, avô materno de Manuel Maria, filho de um comerciante da região de Cherbourg, na Normandia, nasceu a 10 de abril de 1658.

Cedo, Gil du Bocage entrou para a armada francesa, ficando conhecido como um “bom pirata” por atacar e pilhar navios ingleses. Conta-se que, após um desses episódios, se fez passar por um pacato negociante e em Lisboa vendeu mercadoria muito procurada na época, paga a peso de ouro, incluindo uma grande quantidade de relógios que se destinariam a um mercador de Veneza.

Por essa altura, Gil du Bocage resolvera ficar em Lisboa. O ano preciso é que continua incerto. Pensa-se que Bocage terá prestado relevantes serviços à coroa portuguesa.

Além da razão, ainda desconhecida, que levou a coroa portuguesa a condecorá-lo com a Ordem de Cristo, um dos factos mais marcantes da vida de Gil du Bocage ocorreu em setembro de 1711.

Sabe-se que esteve no Rio de Janeiro no comando da nau de guerra “São Boaventura”, desde pelo menos agosto, pois existe uma procuração datada de 18 desse mês que passou a um representante em Minas Gerais.

Tudo isto se enquadra em factos históricos, que remontam à Guerra da Sucessão de Espanha. Portugal começou por aderir ao bloco francês, mas com a formação da Grande Aliança contra a França, que incluía a Inglaterra, a Holanda e a Áustria, hesitou porque colocava em risco o Brasil, a base económica do País.

Depois de várias negociações, Portugal acabara por integrar a Grande Aliança. A intervenção portuguesa no conflito resultou no desembarque de corsários franceses no Brasil, em 1710, dispostos a saquear a cidade do Rio de Janeiro.

Duas uniões

Da vida privada de Gil l’Hedois du Bocage, sabe-se que casou em França com Helena de Bois, de quem tivera uma filha, Teresa, e um filho, entretanto falecido.

Acabou por enviuvar e regressou a Portugal. Por volta de 1720, com mais de 60 anos, este cavaleiro da Ordem de Cristo e coronel dos Galeões de Alto Bordo do Mar Oceano vivia de forma desafogada e morava num casarão no Bairro Alto, em Lisboa.

Apesar de rodeado por serviçais, sentia-se sozinho. Até que numa ida a Setúbal, para verificar o estado do armamento e da estrutura de defesa da Fortaleza de S. Filipe, conheceu Clara Francisca Joaquina Xavier Lustoff, uma rapariga de 20 anos, filha de um abastado comerciante que exercia também funções de cônsul da Holanda em Setúbal.

A 12 de junho, Clara Francisca e Gil du Bocage casavam na Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, em Lisboa, cidade onde estabeleceram residência.

Desta união nasceram Mariana Joaquina Xavier Lustoff du Bocage, em 1725, mãe do poeta Manuel Maria, e Antónia Inácia Josefa Xavier l’Hedois du Bocage, quatro anos mais velha.

O casamento durou menos de sete anos. Próximo de completar 70 anos e extremamente debilitado, a 25 de outubro de 1727, Gil l’Hedois du Bocage mandou que fosse lavrado o testamento em que deixou determinado que ao morrer fosse amortalhado com o hábito da Ordem de Cristo.

Três dias depois de assinar o testamento, acabou por falecer. Clara Francisca Joaquina Xavier Lustoff du Bocage tinha pouco menos de 30 anos.

O pai poeta

José Luís Soares de Barbosa nascera em 1728, em Setúbal, e,aos 18 anos, foi para Coimbra, para frequentar a Faculdade de Cânones. Passados três anos obteve o grau de bacharel.

O jovem advogado rumou a Lisboa, mas em 1751 voltou para Setúbal. Por essa altura, José Luís era conhecido pelo seu talento de poeta, acabando por conquistar o coração de Mariana Joaquim, com quem casou.

Em 1765, sete anos após o casamento e dez depois do terramoto, nasceu, às três horas da tarde, Manuel Maria de Barbosa du Bocage, o quarto filho do casal e o segundo varão.

“Herança” do pai

Enquanto José Luís esteve preso no Limoeiro, Manuel Maria ganhava popularidade ao recitar sonetos do pai. Num outro soneto, escrito por Santos e Silva, este poeta refere que Bocage herdou os dotes literários do pai, na altura já falecido: “Esse que infante, a sorvos tragadores / sã doutrina, que jovem, requinta, / bebeu do sábio pai, luz hoje extinta / caudal então de métricos fulgores.”

A precocidade de Bocage fez com que o cercassem de admirações desde muito cedo, razão pela qual depressa o envaideceram. Abusou das improvisações e das sátiras.

Enquanto o irmão, três anos mais velho, Gil Francisco Barbosa du Bocage, estudou Direito em Coimbra, o poeta foi destinado à vida militar. Aos 16 anos, o ingressou, como voluntário, no Regimento de Infantaria de Setúbal.

Apesar de ter recebido uma educação humanista na fase inicial dos estudos, Bocage acabou por entrar, em 1783, na Academia Real dos Guarda-Marinha, em Lisboa, instituição criada pelos conselheiros da Rainha D. Maria I, que oferecia regalias equiparadas aos estudantes universitários. Aí, teve lições de artilharia, geometria, aritmética e língua francesa. Consta que desertou em junho de 1784.

Durante os anos em Lisboa, Bocage estudou e compôs versos. Mas a vida na capital não se encaixou no temperamento irrequieto de Bocage, num período em que reinava a maior intolerância religiosa e todos os que falavam sobre ciência ou cultivavam as letras eram suspeitos de filosofismo.

A propagação das doutrinas filosóficas e a prática de intuitos liberais, vindos de França, eram vigiadas de perto pelo Tribunal da Inquisição e, principalmente, pelo intendente Pina Manique.

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