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“Já Bocage não sou!...”

Os sinais da doença que acabou por vitimar Bocage começaram a manifestar-se no início de 1804. Debilitado, o poeta foi perdendo o alento pelo trabalho. Aos 40 anos, a 21 de dezembro de 1805, morreu na casa onde vivia, em Lisboa.

As traduções de obras literárias eram, no início do século XIX, a principal fonte de rendimento de Bocage, o que lhe permitiu sustentar a irmã Maria Francisca, seis anos mais nova, até os sintomas de um aneurisma nas carótidas reduziram drasticamente a sua capacidade para trabalhar.

Os últimos anos de vida do poeta foram passados ao lado da irmã e da filha dela. Maria Francisca terá rumado a Lisboa depois da morte do pai, José Luís Soares de Barbosa, a 11 de março de 1802, com quem vivia, em Setúbal, por nunca ter casado e ser mãe de uma menina de paternidade não reconhecida. Tal como o pai, os irmãos do poeta viviam na penúria, motivo que a levou a recorrer ao irmão Manuel Maria.

Nessa altura, o poeta habitava num quarto andar de um prédio no então Beco de André Valente, atualmente, Rua do Século, no Bairro Alto. Com base no “Livro de Arruamento” da freguesia das Mercês, depreende-se que o poeta estava novamente desempregado, pois aparece como “sem ofício”.

Ao contrário dos anos anteriores, 1803 foi pouco próspero, sem registo de relevante atividade intelectual de Bocage.

Sintomas da doença

Segundo o biógrafo Gomes Monteiro, foi em 1804 que Bocage começou a sentir os primeiros sintomas da doença que o levaria a uma morte precoce. Supõe-se que o poeta começasse a sentir fortes dores de cabeça e não tivesse a mesma desenvoltura para percorrer as ruas do Chiado e do Bairro Alto.

O seu médico, Manuel Joaquim de Oliveira, não demonstrava qualquer esperança numa cura. Talvez os primeiros sinais da doença estivessem já relacionados com a semana que Bocage passou, em 1799, no Hospital Real de São José, sem indicação sobre os motivos do internamento.

Em 1804, Bocage passou por muitos apuros financeiros. O poeta dirigiu uma epístola a Vicente José Ferreira Cardoso da Costa, a pedir auxílio económico: “(...) / Mando ao teu coração meus ais, meu rogo; / Ouve-os, atende-os, e outra vez minora / Origem triste, que os extrai do peito. / Tu ao náufrago Elmano és porto amigo; / Vou colher no teu seio errantes velas, / Antes que alto escarcéu me sorva o lenho.”

O terceiro tomo das “Rimas”, reunindo muitas das produções que andavam dispersas, foi publicado em julho desse ano. O livro tinha levado nove meses a receber a aprovação do censor Francisco Xavier Oliveira.

Nesse livro, Bocage incluiu um poema a “Filinto Elísio”, um padre e poeta exilado em França, que o louvara numa das suas obras com as seguintes palavras: “Lendo os teus versos, numeroso Elmano, / E o não vulgar conceito, e a feliz frase, / Disse entre mim: ‘Depõe, Filinto, a lira já velha, já cansada, / Que este mancebo vem tomar-te os louros, / Ganhados com teu canto na áurea quadra / Em que ao bom Coridon, a Elfino, a Alfeno / Aplaudia Ulisseia’. / (...) / Desceu Apolo e o coro das donzelas / À morada de Elmano; e esse que outrora / canto nos dava nome, o pôs na boca / Do novo amado cisne.”

Entusiasmado com tal elogio, Bocage respondeu nas “Rimas”: “Zoilos, estremecei, rugi, mordei-vos: / Filinto, o grão cantor, prezou meus versos. / (...) / Adejai, versos meus, ao Sena, ufano / De altos, fastosos, marciais portentos, / E, ganhando amplo voo após Filinto, / Pousai na Eternidade, em torno a Jove. / Eis os tempos, a inveja, a morte, o letes: / Da mente, que os temeu, desaparecem. / Fadou-me o grão Filinto, um vate, um nume / Zoilos! Tremei. Posteridade! És minha.”

Em 1804, o rasto de Bocage perdeu-se, talvez devido ao desalento provocado pela doença, um aneurisma nas carótidas. Só voltou a ser falado no início do ano seguinte, quando foi levada à cena, no Teatro do Salitre, o drama para música “A Virtude Laureada”, escrito pelo poeta.

Esta peça – em que as personagens eram entidades alegóricas, como a Ciência, a Libertinagem, a Polícia e o Génio Lusitano – terá sido encomendada a Bocage por Pina Manique, também doente na altura. No entanto, já sem o poder de outrora e preocupado em manter o cargo de intendente que ainda ocupava, Pina Manique, confrontado com o conteúdo da peça, mandou-a retirar de cena, a 14 de janeiro.

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