22 de Outubro de 2017
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“Nova Arcádia”

A academia literária “Nova Arcádia” – que pretendia fazer renascer a “Arcádia Lusitana”, extinta em 1774 – foi fundada pelos poetas Francisco Joaquim Bingre, Belchior Curvo Semedo e Joaquim Severino Ferraz de Campos.

A “Nova Arcádia” reunia-se no Palácio dos Condes de Pombeiro, hoje edifício da Embaixada da Itália.

Como se tratavam de reuniões despretensiosas, sem nenhuma alusão aos “ventos” soprados de França, Pina Manique, intendente-geral da Polícia, dava pouca atenção a estas reuniões.

Logo que a fama de improvisador de Bocage chegou ao conhecimento dos associados, a academia convidou-o para sócio.

As sessões, presididas pelo padre Domingos Caldas Barbosa, o “Lereno”, nascido no Rio de Janeiro, filho de uma escrava africana, cantor de lânguidas modinhas brasileiras, acompanhadas à guitarra ou à viola, muito em voga nos salões da época, realizavam-se em casa do Conde de Pombeiro ou do Conde de Vimioso, outro aristocrático mecenas.

Eram essas as famosas “Quartas-feiras de Lereno”, preenchidas com chá, torradas e bolinhos, canto, recitação e doses de elogio mútuo.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, entretanto, adotara pseudónimo poético de Elmano Sadino – o cruzamento do seu primeiro nome com a palavra Sado.

Ali reunidos, os escritores davam livre curso à sua pouca inspirada veia poética. A exceção estava em Elmano Sadino, que, entre outras composições, recitou “Idílios Marítimos”, que publicou em 1791, tal como a primeira parte das suas “Rimas”.

Ascensão e queda da Arcádia

Sete odes, 108 sonetos, quatro canções, duas epístolas e cinco idílios bastaram para que o prestígio do poeta chegasse, também, à corte. O reconhecimento e a consequente vaidade levaram Elmano Sadino e outros membros da “Nova Arcádia” a uma luta literária.

A carreira de Bocage ganhou impulso ao ingressar na “Nova Arcádia” – a Academia de Belas-Letras –, em 1791, onde os árcades liam versos ou faziam música, tendo o poeta setubalense adotado o nome de Elmano Sadino, denominação resultante de um anagrama com o seu primeiro nome e de uma referência ao rio Sado.

Bocage começava a publicar as suas obras, que eram vendidas em lojas lisboetas, e atingiu a fama logo com o primeiro livro, “Rimas”.

A recetividade entre as pessoas cultas não poderia ter sido melhor. O “Jornal Enciclopédico”, onde trabalhava o seu amigo e também árcade José Agostinho de Macedo, publicou um artigo muito elogioso a “Rimas”: “...por toda parte destas composições, reina uma naturalidade, singeleza e facilidade admiráveis e que tanto mais encantam os leitores dotados de um gosto puro e delicado, quanto menos vezes se encontram entre nós produções poéticas deste toque.”

Troca de insultos

No entanto, os desentendimentos entre os dois amigos não se fizeram esperar. No âmbito dos festejos do nascimento da filha de Carlota Joaquina e de D. João, em 1793, a “Nova Arcádia” foi convidada para uma sessão no Paço da Ajuda.

Elmano Sadino e Macedo – com o nome arcádico de Elmiro Tagideu –, brilharam nessa sessão, ao improvisarem as suas recitações. A oração improvisada de Macedo, aplaudida pela assistência, fez com fosse convidado para pregador da Casa Real.

Cobertos pela admiração real e envaidecidos, os dois sócios da “Nova Arcádia” começaram a desentender-se, arremessando versos satíricos um contra o outro. Bocage foi acusado por Macedo de “sultão do Parnaso” e de querer impor demais as suas conceções poéticas.

Não se sabe ao certo quem iniciou a briga literária. No entanto, foi atribuído a Bocage a autoria de um soneto que acabaria por iniciar o declínio da Academia de Belas-Letras: “Preside o neto da rainha Ginga / à corja vil, aduladora, insana; / Traz sujo moço amostras de chanfana, / Em copos desiguais se esgota a pinga: / Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga; / Masca farinha a turba americana; / E o orangotango a corda à banza abana, / Com gestos e visagens de mandinga: / Um bando de comparsas logo acode / Do fofo conde ao novo Talaveiras; / Improvisa berrando o rouco bode: / Aplaudem de contínuo as frioleiras / Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode; / Eis aqui do Lereno as quartas-feiras.”

Tal sátira explodiu como uma bomba e muitas se lhe seguiram atingindo alguns dos membros da Arcádia. Em rutura com Bocage, José Agostinho de Macedo dirigiu-lhe versos atingindo o seu modo de vida e a sua fama de boémio.

Expulso da academia

Membro da “Nova Arcádia” durante cerca de três anos, Bocage acabou por ser expulso, devido às sátiras mordazes que dirigiu aos seus membros. A guerra verbal, de enorme violência, continuou impiedosa por algum tempo, para grande júbilo do público, ávido de sensacionalismo.

O “Almanaque das Musas”, publicação que pretendia, a partir de 1793, reunir a produção da academia, já continha, no seu primeiro folheto, injúrias a Bocage.

Com uma carga mais pesada dirigida a Elmano Sadino, na quarta e última parte da publicação, saída em 1794, é pedido numa epístola que os leitores não façam “malignas aplicações desta e de outras posturas e carateres, puramente ideais, ainda quando encontrem pessoas que com ele se pareçam”.

Tal pedido é puramente irónico, pois o autor utiliza num verso o anagrama “Gecabo” feito com o nome de Bocage: “(...) / Entrava neste tempo pela sala / O grão Gecabo, rimador famoso (...) / Despótico sultão da poesia, / Que a todos fere, e só a si perdoa, / Que para pasto dar ao génio negro / Da sátira malvada que o devora / E começa a empurgar naqueles mesmos / Generosos amigos, que o acolhem: / Que antes da boca quer perder um dente / Do que o fel de um soneto contra a um homem (...).”

Bocage respondia a estas investidas com sonetos em que utilizava uma linguagem que entrava na ofensa pessoal dos árcades, o que atraía o interesse do público frequentador dos botequins.

Coberta de ridículo e sarcasmo, a Arcádia acabou por se dissolver.

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