
Terminada a viagem pelo Oriente, Bocage encontrou uma Lisboa marcada pelo espírito revolucionário francês, proclamado nos botequins e nas tabernas. O poeta descobriu no “Café Nicola” um dos maiores centros de discussão política. Entretanto, nascia um núcleo literário – a “Nova Arcádia”.
Depois de quatro anos pelo Oriente, Bocage volta a Portugal, em 1790. A Lisboa que o poeta deixara em 1786 não estava muito diferente da que reencontrou. As ruas da capital continuavam sujas e poeirentas. Os locais de maior afluência no dia a dia eram entre Santa Apolónia e Santos-o-Velho, subindo pela Calçada do Combro até ao Chiado, descendo o Rossio, passando pela Praça da Figueira até à Rua de São José.
O tráfego atravessava livremente no Rossio. Também os largos do Terreiro do Trigo, da Ribeira, do Cais do Sodré e do Loreto eram bastante concorridos. Prostitutas ofereciam-se pelas ruas da capital, que à noite era também da elite e dos boémios.
Só um pormenor – significativo – faria a diferença, motivado por uma notícia, publicada em agosto de 1789 pela “Gazeta de Lisboa”, a dar conta de uma revolução predestinada a fazer “época nos anais da França”. Desde então, os ventos revolucionários faziam-se sentir nos botequins e nas tabernas. Esses ambientes, verdadeiros centros de discussão política, Bocage encontrou-os no “Café Nicola” e no “Botequim das Parras”, na área do Rossio.
Jornais proibidos, poesias e até cartas e textos vindos do estrangeiro circulavam pelos cafés, enquanto ecoavam cantigas revolucionárias.
De novo em Lisboa, Bocage voltou, segundo Hernâni Cidade refere em “Bocage, a Obra e o Homem”, “de novo na boémia dos botequins, na vagabundagem de uma vida sem dignidade do esforço que permitisse dispensar as humilhações do piedoso acolhimento por casas de amigos e dos jantares a troco de ditirambos e sonetos laudatórios”.
Bocage reencontrou José Agostinho de Macedo, frei da Ordem de Santo Agostinho Calçado, que tivera preso, por ordem de Pina Manique que o julgava como um sujeito de “mau procedimento”. Apesar de ligado à vida religiosa, Macedo foi considerado um bom poeta.
Sem trabalho nem bens, Bocage instalou-se na casa do amigo. Passou a acompanhar Macedo em aventuras por casas de pasto, bilhares, lojas de bebidas e locais de prostituição.
No entanto, a consagração pública do poeta levou a que os confrades da Academia das Belas-Letras de Lisboa, fundada em 1790, conhecida por “Nova Arcádia”, convidassem Bocage para a integrar, um ano depois.



















































