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Perseguido pelo regime

Os ideais iluministas ecoavam quer nos cafés do Rossio, quer em publicações, que circulavam de mão em mão, a satirizar a Família Real e o Governo. Bocage era o principal suspeito desse movimento devido aos seus conhecimentos da língua francesa. Os seus sonetos pregando a liberdade levaram-no à prisão.

Expulso da Nova Arcádia, em 1794, apesar de há muito ter deixado de fazer parte de tais encontros, Bocage frequentava o seu local preferido, o Botequim das Parras, mais concretamente o “Agulheiro dos Sábios”, um recanto do estabelecimento.

Nesse gabinete reservado da loja de bebidas pertencente a José Pedro da Silva, reuniam-se poetas ao fim da tarde, nomeadamente Francisco Joaquim Bingre e Tomás António de Santos e Silva, além de Bocage. As tertúlias avançavam noite adentro, bem regadas de bebidas como a genebra.

Na epístola “Pena de Talião”, o poeta setubalense escreve: “Claro auditório meu, vingai-me a glória!”

Bocage recitava sonetos que arrancavam muitos aplausos. Para o proprietário do Botequim das Parras, antigo funcionário do vizinho Café Nicola, as histórias de Bocage funcionavam como chamariz a boa parte dos fregueses do estabelecimento “rival”. José Pedro da Silva mantinha relações com figuras do Governo, mas também simpatizava com as ideias francesas.

Apesar de tudo o que se dizia sobre o “Botequim”, o “Nicola” era o mais falado de Lisboa. O “Botequim”, cujo nome se deve à decoração do teto, com cachos de uvas e folhas de videira, funcionou até 1850, mas nem sempre sob a direção de José Pedro da Silva, que optou por uma carreira mais segura no funcionalismo régio.

“Moscas” do intendente

Estes dois estabelecimentos, os centros nervosos da capital, frequentados por adeptos da revolução francesa e que procuravam ridicularizar as figuras do Governo e da Família Real, estavam sob a mira das “moscas”, agentes criados por Pina Manique, intendente-geral da Polícia, que tinham a missão de bisbilhotar a vida alheia.

Quem soubesse falar ou ler francês era considerado suspeito. Assim acontecia com Bocage, carregado de francesismo, até no nome, não escondia os seus ideais políticos e facilmente lhe era atribuída a tradução de “obras perigosas”. No prefácio que escreveu, quando traduziu o drama de monsieur D’Arnaud “Triunfo da Religião”, fez questão de se mostrar um profundo conhecedor da língua francesa.

Nessa altura não se sabia onde o poeta morava, nem o que fazia para sobreviver. O livro “Rimas” continuava à venda, por 480 réis, na loja da “Gazeta”, supondo-se que fosse essa a sua fonte de rendimento.

Segundo refere Adelto Gonçalves, professor de Literatura da Universidade de Lisboa, em “Bocage, o Perfil Perdido”, “desenvolveu-se uma longa teoria sobre mulheres cantadas por Bocage sob diversos disfarces, mas nem sempre o poeta se referia a alguém por quem nutrisse paixão”.

O autor afirma que muitos dos versos que escreveu seriam por encomenda, “como aqueles em que se refere a Marília, mulher de Gregório Freire Carneiro, o amigo que ‘mil vezes’ teria salvado ‘do pego da indigência o triste vate’”.

Bocage na cadeia

Apesar de toda a repressão política, as notícias vindas de França não deixavam indiferente o poeta.

A cada passo de consolidação da república francesa, Bocage radicalizava cada vez mais as suas opções pelos ideais do Iluminismo, facilmente comprovados nos sonetos dessa época. De mão em mão, circulavam, obscuramente, sátiras e críticas manuscritas, por vezes com acrescentos de um copista para outro.

Mas aquilo que se assumia como o assunto dominante nos cafés do Rossio, pelo menos até ao final de 1794, era a chegada do capitão italiano Vicente Lunardi a Lisboa. O aeronauta pretendia levantar voo num balão a partir do Terreiro do Paço, tal como já o tinha feito noutras cidades europeias. Tal aventura do italiano deixou Bocage extasiado, tendo-lhe dedicado alguns sonetos.

Um outro soneto, escrito a 11 de julho de 1797, serviu para Bocage homenagear um réu atirado para a forca. Horrorizado por assistir a tal ato, nesse mesmo ano, escreveu a epístola intitulada “Verdades duras”: “(...) Amar é um dever, além de um gosto, / Uma necessidade, não um crime. / Qual a impostura horrísona apregoa. / Céus não existem, não existe inferno, / O prémio da virtude é a virtude, / É castigo do vício o próprio vício.”

Acusado de escrever “papéis ímpios, sediciosos e críticos”, Bocage é detido pelos agentes de Pina Manique a 7 de agosto de 1797.

Tenta ainda fugir para o Brasil. Mas, a bordo da corveta “Aviso” é detido pela Polícia e levado para a prisão do Limoeiro, onde o pai também estivera, 26 anos antes. No cárcere, Bocage conheceria o inferno.

Passagem por convento

Até 14 de novembro, Bocage permaneceu no Limoeiro, sendo transferido para o cárcere da Inquisição de Lisboa, no Palácio dos Estaus, situado no Rossio.

Ali ficou até 17 de fevereiro de 1798. Submetido ao interrogatório da praxe, Bocage foi acusado, e dado como “confesso”, de “compor algumas obras heréticas, das quais fez sua apresentação”.

Do Palácio dos Estaus, Bocage foi mandado para o Convento de São Bento da Saúde. Os frades da Ordem dos Beneditinos registaram a chegada do poeta: “A 17 do presente mês de fevereiro, foi mandado para este mosteiro pelo Tribunal do Santo Ofício o célebre poeta Manuel Maria de Bocage, bem conhecido nesta Corte pelas suas poesias e não menos pela sua instrução.”

Ali, Bocage encontrou consolo dos tormentos passados na prisão do Limoeiro e no cárcere da Inquisição, apesar de estar privado de liberdade. Recebia boas refeições, tinha acesso a livros importantes e mantinha conversas com os cultos beneditinos.

No mosteiro, onde permaneceu até 12 de março de 1798, o poeta viveu momentos de paz e de reflexão, mesmo resistindo aos dogmas da religião católica.

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