22 de Outubro de 2017
20º
max. 21º
min. 10º
História
iniciativas em destaque
início > Concelho > História > Personalidades > Reconciliação final
Reconciliação final

Ao longo de 1805, a saúde do poeta ia ficando cada vez mais debilitada. O aneurisma que lhe tinha dilatado a aorta fez com que caísse à cama.

Para aumentar o desalento, a 28 de março, morreu a filha da irmã Maria Francisca, apenas com 5 anos. Tinha sido um inverno muito rigoroso com fortes chuvadas e neve. Nessa altura, correu em Lisboa o boato de que Bocage havia falecido, talvez originado pelo facto de, no prédio onde habitava, mais duas pessoas terem morrido.

Reagindo à sua morte anunciada, Bocage aceitou que chamassem o pintor Henrique José da Silva para lhe fazer o retrato. Dessa imagem vê-se um homem de 40 anos, de faces ossudas, cabelos longos e grisalhos e olhos vivos no fundo de órbitas profundas.

Durante os últimos meses de vida, recebeu visitas de pessoas de todas as classes sociais. A reconciliação com velhos amigos, como Curvo Semedo, não tardou. Bocage celebrou o facto ao escrever: “Musa de Elmano e Musa de Belmiro, / Una-se a glória sua à glória minha.” A rivalidade com José Agostinho de Macedo também conheceu dias de trégua.

A doença progredia. “Agora só reage nele a esperança de que a glória lhe sobreviverá”, escreveu Hernâni Cidade, em “Bocage, a obra e o homem”, juntando palavras do poeta: “Ave da morte que, piando agouros, / Tinges meus ares de funéreo luto! / Ave da morte (que em teus ais a escuto) / Meus dias murcharás, mas não meus louros!”

Num exame de consciência, Bocage chama ainda o frei António Maria de Sant’Ana Noronha. Lembra momentos que inflamaram auditórios, caminhos percorridos que o distanciaram da vida cristã. Dita ainda ao morgado de Assentis dois sonetos de arrependimento.

A 21 de dezembro de 1805, morreu Manuel Maria Barbosa du Bocage, com 40 anos. O corpo foi enterrado, no dia seguinte, no cemitério da Igreja das Mercês, em Lisboa.

As diferentes imagens do poeta

Como era Bocage? “Magro, de olhos azuis, carão moreno, / Bem servido de pés, meão de altura, / Triste de facha, o mesmo de figura, / Nariz alto no meio, e não pequeno.” Os retratos feitos por artistas ao longo dos tempos, com base num quadro mas há diferenças entre as imagens. A dúvida subsiste.

O retrato de Bocage pintado por Henrique José da Silva, o único feito em vida, em 1805, o ano da morte do poeta, veio a inspirar, direta ou indiretamente, gravuras e litografias que surgiram ao longo dos tempos.

Nessa pintura, Elmano Sadino está sentado numa cadeira, com o cotovelo esquerdo assente numa mesa e a mão apoiada na cabeça. Sobre a mesa está um livro, cuja lombada alude às “Rimas”, que prende uma folha onde estão escritos versos. O indicador da mão direita aponta para os versos escritos nessas folhas que pendem da mesa.

Ao partir para o Brasil, Henrique José da Silva levou o quadro. Mais tarde, José Feliciano de Castilho ofereceu uma cópia dessa pintura à Câmara Municipal de Setúbal, em 1871 mas ela acabou por arder num incêndio que deflagrou, em 1910, nos Paços do Concelho.

No entanto, foi o retrato que Henrique José da Silva fez de Bocage que serviu de modelo para a gravura, de 1806, da autoria de Francesco Bartolozzi. Tal trabalho viria a generalizar uma postura e atributos específicos na representação de Bocage, os quais foram copiados por gravadores, litógrafos e pintores de várias gerações.

Apesar de as múltiplas imagens diversificarem nos pormenores, o modelo iconográfico mantém-se mais ou menos fiel: olhos um pouco salientes, sobrolho vincado, maças do rosto salientes, nariz longo, boca carnuda bem delineada e pequena, e cabelo revolto à frente.

Isso pode constatar-se por exemplo numa pintura a óleo sobre tela, de autoria desconhecida e não datada. O pintor retrata Bocage sentado numa cadeira, cujas costas estão viradas para o observador. O tronco do poeta, sentado de lado, roda ligeiramente para “nos fitar”. O braço esquerdo está apoiado sobre o espaldar das costas da cadeira e as mãos cruzadas à frente do peito.

Obra serve de inspiração

O pintor autodidata setubalense Francisco Augusto Flamengo inspirou-se no modelo criado por Bartolozzi para reproduzir duas imagens de Bocage. Datadas de 1899, assemelham-se quer no enquadramento quer nos pormenores.

Também o setubalense Fernando dos Santos desenhou dois retratos do poeta - um a grafite, de 1906, e outro a carvão, de 1911. No entanto, a grande obra deste pintor foi “Bocage e as Musas”, pintado em 1929, no seguimento de uma encomenda da Câmara Municipal de Setúbal.

Bem diferente das representações até então feitas por vários artistas, Júlio Pomar desenhou Bocage, em 1983, em carvão e marcador de feltro sobre papel vegetal. Este desenho teve origem numa encomenda do Metropolitano de Lisboa para o revestimento de uma estação.

Lima de Freitas ilustrou o soneto “Já Bocage não sou!...”, integrado no primeiro volume das “Obras Escolhidas de Bocage”, da editora Artis, com um desenho em que o poeta aparece transfigurado, descarnado e já sem vida.

Outros artistas pintaram Bocage inspirando-se na própria obra do poeta. Nomes como Pedro Charters de Azevedo, Isabel Rasquinho, Ana Marques, Souza Lith ou António Nelos, que compôs um “Soneto Visual”, numa técnica mista sobre cartão.

Estátua de Bocage

A estátua de Bocage, na cidade de Setúbal, situada na Praça com o mesmo nome, foi inaugurada em 21 de dezembro de 1871, tendo assistido à cerimónia o ministro do Reino, representantes das Academias e várias personalidades das Ciências e da Literatura, entre os quais Eça de Queirós.

O monumento, de mármore branco, mede 12 metros de altura e é formado por uma coluna coríntia em cima de quatro degraus oitavados, tendo sobre o capitel a estátua do poeta, com dois metros.

O desenho envolvente da estátua resulta da estilização do punho trifacetado da espada de Santiago. A coluna sugere a forma da bainha da espada desenhada no olo. Bocage está representado com a cabeça descoberta e um tanto inclinada, em atitude meditativa, com a capa pendente do ombro, segurando na mão direita uma pena e na esquerda algumas folhas de papel. O capitel tem uma lira coroada de rosas em cada face, entre as volutas e as folhas de acantho.

Nas faces do pedestral estão inscritas as seguintes palavras:

A sul - A M.M.BARBOSA DU BOCAGE/ ADMIRADORES SEUS/ PORTUGUESES E BRASILEIROS/MDCCCLXXI; DE ELMANO EIS SOBRE O MÁRMORE SAGRADO/ A LYRA EM QUE CHORAVA OU RIA AMORES.../SER D’ELLES, SER DAS MUSAS FOI SEU FADO!/ HONRAI-LHES A LYRA VATES E AMADORAS!/;

A nascente - DOOU-ME PHEBO AOS SECULOS VONDOUROS;/ DEPONHO A FLOR DA VIDA E AGUARDO O FRUCTO;/ PAGANDO À VIL MATÉRIA O VIL TRIBUTO/ RETENHO A POSSE D’IMMORTAES THESOUROS./;

A norte - ASSIM COM QUEM SE UFANA A PEDRA ERGUIDA,/ AH! SE ENCANTOU COM SONORAS CORES.../ JÁ BOCAGE NÃO É! NÃO SOIS AMORES!.../ CHORAI-LHES A MORTE, CELEBRAI-LHES A VIDA!/;

A poente - UM NUME SÓ TERRÍVEL AOS TYRANNOS,/ NÃO HÁ TRISTE MORTAL, FRAGILIDADE;/ EIS O DEUS QUE CONSOLA A HUMANIDADE,/ EIS O DEUS DA RASÃO, O DEUS D’ELMANO.

A ideia de erigir uma estátua em homenagem ao poeta surgiu em 15 de setembro de 1865, no Rio de Janeiro, durante as comemorações do centenário do seu nascimento.

Os incentivadores foram os irmãos Castilho, o conselheiro José Feliciano de Castilho Barreto e Noronha e António Feliciano de Castilho.

José Castilho sugeriu à comunidade brasileira a organização de um peditório. Recolheram-se 8.427.640 réis, quantia posteriormente depositada, por fases, na Casa Fortinho e Moniz, que veio a falir.

Felizmente, não se tinha depositado uma última quantia, no valor de 162 mil réis e o banco, por seu turno, devolveu 162 mil réis. Foram estas duas últimas verbas que custearam a estátua, feita pelo escultor Pedro Carlos dos Reis e fabricado, em Lisboa, na oficina de José Salles.

APOIOS

AMRS
Setúbal é um Mundo
Câmara Municipal de Setúbal. ©
Todos os direitos reservados

website concebido por dodesign