20 de Outubro de 2017
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“Reeducação” à força

Amparado por altos poderes do Estado, Bocage foi transferido para o Hospício das Necessidades por ordem do príncipe regente. O objetivo era a “reeducação” do poeta como forma de o atrair para o seio dos poetas e intelectuais que faziam a apologia da monarquia.

Pina Manique determinou, no entanto, que Bocage não poderia sair do hospício, nem comunicar com ninguém de fora, à exceção dos religiosos.

Com eles o poeta encontrou alento para se dedicar a um trabalho que lhe poderia garantir uma sobrevivência decente.

Aproveitando as relíquias existentes nas bibliotecas dos religiosos, Bocage começou a traduzir várias obras, como “As Metamorfoses”, de Ovídio, ou “Henríada”, de Voltaire.

Enquanto esteve detido no hospício, o ministro José de Seabra da Silva ofereceu-lhe o lugar de oficial da Biblioteca Pública de Lisboa, que funcionava na Praça do Comércio. Bocage recusou a oferta, pois queria manter a sua independência.

Como resultado da “reeducação”, Bocage escreveu um soneto revelando a sua deceção com as consequências da queda da monarquia francesa: “Sanhudo inexorável despotismo, / Monstro, q’em pranto, em sangue a fúria cevas, / Que em mil quadros horríficos te enlevas, / Obra da iniquidade e do ateísmo: / Assanhas o danado fanatismo, / Porque te escorre o trono onde te elevas; / Porque o sol da verdade envolva em trevas, / E sepulte a razão num denso abismo (...).”

Ao sair do Real Hospício das Necessidades, onde esteve enclausurado durante nove meses, o poeta estaria grato ao príncipe regente, a quem dirigiu vários elogios.

Tradutor amigo da Corte

Com um emprego na Oficina do Arco do Cego, Bocage era considerado pela Corte um homem regenerado. Passou pelos teatros de Lisboa, onde teceu elogios à Família Real. As críticas não tardaram. José Agostinho de Macedo satirizou a nova vida de Elmano Sadino.

Bocage passou a fase final da clausura num hospício, onde a Corte começou a “reeducá-lo”, o que permitiu ao poeta, a par da escrita de sonetos, dedicar-se à tradução, atividade que prosseguiu em liberdade.

Não se sabe ao certo para onde Bocage foi habitar depois de sair em liberdade, em 31 de dezembro de 1798, após meses de reclusão nas prisões do Limoeiro e da Inquisição, num convento e num hospício. Pensa-se que alugou um quarto num prédio situado no Terreiro do Trigo, perto do bairro lisboeta de Alfama.

O livro “Bocage, o Perfil Perdido”, de Adelto Gonçalves, relata que, a 24 de agosto de 1799, Bocage deu entrada na enfermaria do Hospital Real de São José, tendo de lá saído uma semana depois. O registo de entrada na enfermaria referia que o doente, de 34 anos, não tinha ocupação. A razão pela qual dera entrada no hospital não é mencionada na obra de Adelto Gonçalves.

Dois meses antes deste episódio, era publicado o segundo volume de “Rimas”. Em “Obras de Bocage”, da Lello & Irmão – Editores, é referido que o segundo volume foi “dedicado a António José Álvares, que o fora socorrer com dinheiro quando ainda se achava no segredo: ‘A minha gratidão te dá meus versos’”.

Nessa altura, Bocage adquiriu prestígio público. Passou a ser bem visto pelo poder, tendo tecido elogios tanto ao príncipe regente D. João, como à rainha D. Maria I. Elogios esses recitados no Teatro do Salitre, a 13 de maio de 1799 e a 17 de dezembro do mesmo ano, no Teatro da Rua dos Condes.

Em troca de 24 mil réis mensais, quantia suficiente para pagar o aluguer anual de um andar no prédio no Bairro Alto, Bocage trabalhou na Oficina Tipográfica, Calcográfica, Tipoplástica e Literária do Arco do Cego, onde conheceu o frei José Mariano da Conceição Veloso, um dos diretores.

Traduções, revisões de provas e aperfeiçoamento de textos alheios eram as funções de Bocage.

O prestígio do poeta crescia ainda mais. Era requisitado para escrever textos destinados a serem lidos em teatros.

Aceite por Pina Manique

Em junho de 1800, era publicada a tradução – de latim para português, feita por Bocage – do “Canto Heroico sobre as façanhas dos portugueses na expedição de Tripoli”, livro impresso na Oficina do Arco do Cego.

Nesse mesmo ano, e depois de tantas conversações com a Real Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura de Livros, chegaram às mãos dos leitores novas edições do primeiro e do segundo tomo de “Rimas”, este último publicado pela primeira vez em 1799. Do primeiro constavam novas poesias e a tradução de 12 fábulas de La Fontaine, além de outros autores franceses.

Bocage continuava a ser aplaudido no meio literário. Em 1801, recebeu a aprovação geral da comunidade literária ao traduzir o poema didático do francês Delille, intitulado “Os jardins ou a Arte de aformosear as paisagens”.

No prólogo, Bocage escreveu: “O amor à glória e à gratidão talvez ainda criem na minha alma um ardor que a fecunde, tornando-me digno do afeto com que me honra o público; e, entretanto, lhe apresento esta versão, a mais concisa, a mais fiel, que pude ordená-la (…).”

No final deste ano, Bocage, já na companhia de sua irmã Maria Francisca, aos olhos do poder, estava recuperado, de tal forma que o intendente Pina Manique convidou o poeta para participar, a 11 de novembro, no Teatro de São Carlos, numa festa para comemorar o restabelecimento da paz com França. Nessa sessão, Bocage brindou D. João com a “Congratulação ao príncipe regente e à pátria, na paz universal”.

Atacado por Macedo

O facto de Bocage ter sido bem aceite na Corte não era bem visto aos olhos do árcade Elmiro (José Agostinho de Macedo), fazendo novas investidas contra o poeta setubalense. Macedo escreveu uma “Sátira a Manuel Maria Barbosa du Bocage” onde dizia: “Sempre, oh Bocage, as sátiras serviram / Para dar nome eterno e fama a um tolo.”

Segundo Adelto Gonçalves, Macedo atacava aquilo que era a parte mais fraca da poesia de Bocage, “a monotonia de algumas imagens, as antíteses e tautologias que, à força da repetição por seus imitadores baratos, haveriam de caracterizar a escola a que se chamou de elmanismo”

Para Macedo, Bocage tinha perdido a “ordem natural do discurso”: “(…) / São em ordem retrógrada já lidos / Versos que urdido tens, depois que o estro / Deixaste nas gangéticas ribeiras; / Deslocados fogachos, que não sabem / Coligir-se entre si. Bem disse aquele / Que imparcialmente tem lido as obras tuas / Carregadas de antíteses, de tantas / Enfadonhas metáforas aos pares, / Que lido um verso teu são lidos todos/ (…) / Dize que o verso é teu, que este não morre.”

Nas sátiras dirigidas a Bocage, José Agostinho de Macedo não deixava escapar também a vida boémia que o poeta anteriormente tivera, parecendo esquecer-se que desde que Elmano Sadino saíra do Real Hospício das Necessidades estava não só regenerado como era um homem a favor do poder estabelecido e da ordem: “Nem ser pobre se opõe ao génio, às artes; / Foram pobres Camões, Homero e Tasso, / Nem ser vadio num poeta é crime, / Nunca um poeta bom teve outro ofício. / Tu és magro, és vadio, és pobre, és feio…”

Conta-se que um dia, transtornado com Macedo, Bocage entrou no Botequim das Parras. No “Agulheiro dos Sábios”, gabinete reservado onde os poetas se reuniam, encontrou o amigo Francisco de Paula Cardoso de Almeida, morgado de Assentis, e gritou: “Tolo? Tolo! Tolo!... nem ele!”

Pediu um lápis e, dirigindo-se ao amigo, disse: “Arranja papel e escreve-me antes que a cabeça me arrebente!” Sentados numa mesa, Bocage, bebendo cálices de genebra e fumando cigarro atrás de cigarro, começou a ditar a resposta aos ataques de Macedo, dando origem à “Pena de Talião”.

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