Parcialmente nublado
Encontro dos Profissionais de Comunicação 2019

Caminhos para a atualização e adaptação dos modelos de negócio, dos paradigmas comunicacionais e da regulamentação do setor da comunicação perante a evolução social resultante da revolução digital estiveram em análise, no dia 26,  num encontro de profissionais da área.


“A Comunicação Social e Institucional na Era do Digital” foi o eixo temático dominante do III Encontro dos Profissionais de Comunicação da Península de Setúbal e do Litoral Alentejano, iniciativa que reuniu, no Cinema Charlot – Auditório Municipal, perto de duas centenas de participantes.

O impacte das redes sociais enquanto meio de difusão de notícias, independentemente da veracidade dos conteúdos e da credibilidade das fontes, é um dos fenómenos que estão a exigir mais atenção aos profissionais do setor.

Na abertura do encontro, o vice-presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Manuel Pisco, sublinhou que, quando era jovem, os acessos aos meios de comunicação rareavam. “Isso mudou radicalmente, o que é bom. Agora, um dos problemas dessa massificação é a ideia de que não há responsabilização. Partilha-se uma notícia no Facebook, no blogue, no Twitter, sem a consciência de que se é responsável, perante os outros, por esse conteúdo. É preciso conhecer a veracidade da informação. É uma questão de boa educação.”

O autarca salientou na iniciativa, organizada pelo município sadino e o jornal “O Setubalense – Diário da Região”, que “continua a ser essencial numa notícia responder a cinco perguntas elementares: quem, como, quando, onde e porquê”, numa realidade, acrescentou, em que o jornalista deve continuar a ser o principal ator a assumir a função de informar a sociedade.

Manuel Pisco alertou, porém, que, com a era digital e a massificação de informação que dela resultou, além do jornalista, emergiram outros intervenientes que têm vindo a assumir o protagonismo no controlo da informação. “Hoje há os ‘lovers’, os ‘haters’ e os ‘influencers’. E estas são pessoas com capacidade real de orientar as opiniões dos seus públicos.”

Ivo Conceição, digital marketing manager do Vitória Futebol Clube, também conhecido por ter sido um dos criadores do projeto “Homens da Luta” e autor da popular página do Facebook “Bocage 2.0”, entretanto encerrada, partilha de algumas das preocupações habitualmente apontadas à era digital, embora admita que se trata de um processo de adaptação, quer dos públicos, quer dos profissionais do setor.

Ivo Conceição sublinhou que “estão todos muito focados no digital, mas nunca se devem esquecer do ‘offline’ [fora da rede]. O ‘offline’ tem muita força. O que se deve pensar [para um projeto de comunicação] é num formato de 360 graus, de pensar global, sem excluir nenhuma das ferramentas disponíveis”.

Uma das principais ameaças da era da informação digital, destacou o vice-presidente Manuel Pisco, é a inexistência de bidirecionalidade dos conteúdos. “Até começa por ser apresentada dessa forma, sendo anunciada como uma das vantagens das plataformas digitais, mas, com a atual realidade dos ‘influencers’, rapidamente se perde, graças à influência de opiniões, transformando-se em algo unidirecional. Ora, a comunicação só o é, na sua essência, quando é bidirecional. Só há cidadania quando controlamos o que pensamos e o que fazemos. Só assim há Democracia.”

O fenómeno dos grupos do Facebook foi outra dimensão em análise durante o encontro. Rui Canas Gaspar, criador do “Coisas de Setúbal”, abordou algumas das medidas que sentiu necessárias para garantir a correta gestão do grupo dedicado à partilha de opiniões sobre o concelho sadino e que tem, atualmente, cerca de 70 mil membros.

“Começou por abranger o distrito, mas tive de reduzir a amplitude geográfica da informação para a realidade do concelho. Houve a necessidade de alterar o estado de ‘aberto’ para ‘privado’ e foi preciso aprender a gerir os conteúdos, nomeadamente filtrar comentários, muitas vezes relacionados com pornografia ou publicidade enganosa. É curioso, mas não conheço pessoalmente todos os 11 administradores que atualmente gerem o grupo.”

O comportamento social na era digital foi apenas uma das várias vertentes exploradas na terceira edição do encontro de profissionais de comunicação.

Durante a manhã foram partilhados com a plateia exemplos de projetos de comunicação, caso do novo Portugal Now, uma iniciativa do Diário de Notícias da Madeira, a lançar no início de 2020, que vai reunir, num site e numa app, conteúdos noticiosos de 11 jornais regionais do continente e do arquipélago da Madeira.

Jorge Gomes, representante da Associação de Voluntários Digitais em Situações de Emergência, abordou formas de cidadania ativa no controlo da qualidade da informação durante emergências de proteção civil e que é difundida pela comunicação social e pelas nas redes sociais e outros sistemas informais de informação.

“Frases como ‘Envie-nos a sua foto do furacão Lorenzo’, como pudemos ler há bem pouco tempo, na verdade, estão a pedir às pessoas para se colocarem em perigo a troco de uma imagem que as faça aparecer numa plataforma de dimensão nacional”, alertou Jorge Gomes.

O representante da associação, também designada VOST Portugal, apresentou vários outros exemplos, de casos reais, quer da comunicação social, quer das redes sociais, onde se fomentou alarmismo na população a partir de alertas da Proteção Civil ou com origem noutras entidades.

“A comunicação social tem um problema sério: o sangue vende”, apontou Jorge Gomes, adiantando que o grupo de voluntários da VOST Portugal é “muito abordado para se expressar sobre a veracidade de fotos, a maioria delas de acidentes e a circular nas redes sociais”.

A VOST Portugal, entre outras finalidades, tem como principal objetivo amplificar, em tempo real, mensagens oficiais sobre emergências relacionadas com fenómenos meteorológicos adversos.

Jorge Gomes deixou, ainda, recomendações às entidades públicas ou privadas que difundem este tipo de alertas. “É importante haver interatividade com a população em relação aos comunicados emitidos. Caso contrário, gera-se um vazio e, a seguir, alguém vem dizer que o incêndio destruiu um bairro, quando, na verdade, apenas ardeu um carro.”

Entre os oradores do período da manhã foi transversal a opinião de que urge uma atuação mais presente e firme das autoridades em matérias de difusão de notícias em canais informais ou redes socais, em particular no que concerne às notícias falsas, conhecidas como fake news.

Pedro Gonçalves, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, confirmou a existência “de um vazio muito grande na legislação em Portugal sobre o assunto”, mas “não significa que a ERC fique de braços cruzados enquanto se assiste ao crescimento deste fenómeno”.

Uma das medidas possíveis para mitigar o surgimento e profusão de fake news, adiantou Pedro Gonçalves, é a eventualidade de imputação de processos judiciais “pela usurpação de funções”, por exemplo, a detentores de páginas de redes sociais que assumem o papel de jornalistas.

“A literacia mediática também pode ser uma aposta segura, a longo prazo, para o combate à desinformação”, acrescentou, adiantando que a ERC “irá, muito rapidamente, encetar um trabalho de revisão dos seus regulamentos e estatutos” em face da evolução dos media.

O III Encontro dos Profissionais de Comunicação incluiu, ainda, intervenções de Paula Santos, diretora adjunta do Expresso, Manuel Acácio, moderador do programa Fórum TSF, Marta Mimoso, da agência Estúdio da Comunicação, Catarina Vasconcelos, diretora-geral da LPM Comunicação, Fernanda Bonifácio, da EDP Distribuição, e Isabel Vilhena, da Câmara Municipal de Odemira./vc_column_text]