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Coronavírus Covid-19 | costureiras produzem máscaras para o Centro Hospitalar de Setúbal

Uma equipa de costureiras de Setúbal, que veste as marchas populares do concelho, está a produzir botas e máscaras em tecido para proteger os profissionais de saúde locais nesta fase de combate à pandemia de Covid-19.


Ao início da tarde, nas Manteigadas, há pouca gente na rua. Veem-se pessoas, mas à janela, ouvem-se as televisões no interior das casas e o silêncio urbano que impera nestes dias permite ouvir, de outra forma, os pássaros.

O novo coronavírus, convencionalmente designado Covid-19, colocou parte da população de quarentena.

Cecília Candeias e o casal Antónia e Carlos Nascimento, moradores naquela zona da cidade, vestem anualmente diversas coletividades das Marchas Populares de Setúbal, evento que a pandemia está, por enquanto, “a deixar em segundo plano”.

Preocupados com o surto, largaram as rodas e os brilhos dos trajes das festas populares em nome da saúde local, estando a produzir, desde dia 24, centenas de botas e máscaras de proteção, em tecido reutilizável, ecológico e hipoalérgico, para os serviços do Centro Hospitalar de Setúbal.

A iniciativa, inovadora, destinada a enfrentar a falta de equipamento de proteção individual para os profissionais de saúde, partiu da dupla de costureiras, juntamente com o produtor, ensaiador e criador de espetáculos de teatro Bruno Frazão, que desafiaram a autarquia e o Serviço Municipal de Proteção Civil e Bombeiros de Setúbal na confeção do material.

À equipa de voluntariado uniu-se, igualmente, o Centro Hospitalar de Setúbal, que, além de apadrinhar a ideia, forneceu o tecido especial, reutilizável e antimicrobiano, adequado a ambiente hospitalar e às reais necessidades do trabalho dos profissionais de saúde.

Os trabalhos estão em marcha desde dia 24 numa das divisões da casa da costureira Antónia Nascimento e do marido Carlos.

Numa das paredes está preso um arco-íris de bobinas de linhas. Caixas, tesouras e uma série de instrumentos de apoio ocupam as mesas e o tique-taque rápido da máquina de costura acompanha o ambiente.

“Nunca nos passou pela cabeça que um dia estaríamos a fazer trabalhos para o hospital”, desabafa Cecília, 65 anos, fita métrica ao pescoço, enquanto cose a primeira máscara do dia e da vida inteira e troca ideias com a colega de costura.

“Estamos felizes por ajudar, apesar de ser pelas piores razões”, complementa Antónia, 62.

Dedicadas desde jovens à profissão de corte e costura, as duas mulheres terminam em perto de sete horas as primeiras duzentas botas, em pano azul.

Nesta fase, e até ao final de dia 27, esperam concluir mais duas centenas de máscaras. “Um trabalho que é mais minucioso por causa das pregas e da colocação dos elásticos.”

Depois de concluídas, Bruno Frazão, responsável por um grupo de teatro local, está a fazer o transporte das peças de proteção individual da sala de costura para o Serviço de Proteção Civil e Bombeiros de Setúbal, para serem entregues ao Centro Hospitalar.

Sempre seguindo as devidas preocupações, sendo a distribuição dependente das necessidades daquela unidade de saúde local e do fornecimento do tecido.

Com as festas populares a meio-gás, as mãos, as máquinas e as agulhas de Antónia e Cecília estão, por estes dias, longe da luz dos folhos dos trajes e dos adereços. Mas acendem, ao mesmo tempo, uma nova esperança.