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Debate Doenças e Doentes

A necessidade de lutar contra o estigma e a marginalização social associados a determinadas doenças foi destacada  num debate promovido dia 29 pela Liga de Amigos do Hospital de São Bernardo – Centro Hospitalar de Setúbal.


Na abertura do debate “Doenças, Doentes, Sociedade e Estigmatização”, na sala de sessões do Hospital de São Bernardo, a presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, falou da necessidade de combater o preconceito e a marginalização social em relação aos portadores de doenças.

“Continuamos ainda a assistir a fenómenos negativos na forma como pessoas com algumas condições de saúde são tratadas. A forma depreciativa com que certas designações são utilizadas continua a refletir bastante esta estigmatização.”

Maria das Dores Meira lembrou que, embora o combate aos estigmas associados a doenças já tenha percorrido “um longo caminho na direção correta”, continua a haver um enorme estigma em relação a pessoas com perturbações da fluência da fala, vulgo gaguez, caracterizada por pausas no discurso, hesitações ou bloqueios.

“Curiosamente, quem estigmatiza estas pessoas já não questiona, provavelmente, a necessidade de instalar uma rampa para um deficiente motor poder, e muito bem, aceder a um púlpito de onde tenha de discursar, mas duvida da necessidade de mais tempo para que tem problemas na fala possa dizer o que precisa de dizer.”

Na sessão de abertura, o presidente da Liga de Amigos do Hospital de São Bernardo – Centro Hospitalar de Setúbal, Cândido Teixeira, falou da importância permanente nos cuidados prestados aos doentes pelo corpo de voluntários.

“O corpo de voluntários é constituído por mais de 230 elementos, que prestam o seu serviço, numa média de 45 mil horas por ano, distribuindo mais de 30 mil cafés, 15 mil chás, quinhentos quilos de bolachas. Esta é a aproximação ao doente e aos seus familiares enquanto esperam por uma consulta. Esta fase de humanização é muitas vezes desconhecida.”

Cândido Teixeira apelou para a necessidade da promoção e educação para a saúde. “A sociedade é cada vez mais egoísta e as questões de estigmatização relacionadas com doenças começam muito cedo. Entre os jovens, já se nota a marginalização e a não aceitação quando alguém aparece com determinada doença.”

Igualmente na abertura do debate, o presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Setúbal, Manuel Roque, enalteceu o contributo e o apoio prestado diariamente pela Liga de Amigos do Hospital de São Bernardo no apoio direito a doentes e familiares.

“Nestes tempos de abandono do idoso e abandono de afetos, tem sido a Liga e os voluntários quem faz a última ponte. Os temas que nesta jornada irão ser abordados, casos da estigmatização em saúde e da ética do relacionamento humano na doença, consubstanciam uma boa parte das atenções do nosso voluntariado.”

Os trabalhos continuaram com a conferência “Contextualização Histórico-Filosófica”, por Adelino Cardoso, da Universidade Nova de Lisboa, moderada pelo bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, e com comentários de Viriato Soromenho Marques, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Seguiu-se o debate “Dois exemplos paradigmáticos de estigmatização”, no qual foram apresentados casos de doença infeciosa e contagiosa pelo médico infeciologista Germano do Carmo e de doença psiquiátrica pelo médico António Barbosa.

Este painel contou com moderação do antigo representante dos Hospitais Civis de Lisboa Barros Veloso e comentários de David Morais, da Universidade de Évora.

A segunda parte do encontrou começou com a sessão “Estigmatização em Saúde”, a qual contou com intervenções de Carlos Ferreira, do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, que falou de “Perspetiva Sociológica”, e de Silvério Marques, do projeto Ser+, com a alocução “A Visão de um Cidadão”.

“Ética do Relacionamento Humano da Doença”, por Maria do Céu Neves, da Universidade dos Açores, dá tema à última conferência do encontro, com moderação de Amadeu Lacerda, antigo funcionário do Centro Hospitalar de Setúbal, e comentários de Jorge Soares, do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

A cerimónia de encerramento contou com intervenções de Nuno Fachada, diretor clínico do Centro Hospitalar de Setúbal, do presidente da Comissão de Ética do Centro Hospitalar de Setúbal, José Vinhas, e do provedor do doente da Liga de Amigos do Hospital de São Bernardo, José Poças.