Apresentação do livro “Outro Mundo no Mesmo Lugar – A Cidade das Barracas”

A vice-presidente da Câmara Municipal, Carla Guerreiro, destacou que o livro “Outro Mundo no Mesmo Lugar – A Cidade das Barracas”, apresentado em 21 de abril, desvenda a miséria em que, antes do 25 de Abril, vivia um quarto da população da cidade.


A autarca referiu que o projeto editorial revela “o que foi a miséria, a pobreza, a desgraça em que milhares de pessoas viveram nos tempos da ditadura fascista e do salazarismo”, numa “cidade em crescimento, mas em zonas que eram, então, absolutamente periféricas, quase como se não existissem”.

O livro “Outro Mundo no Mesmo Lugar – A Cidade das Barracas”, de Alberto Lopes, Jaime Pinho, Lia Antunes e Vanessa Iglésias Amorim, cujas fotos têm legendas feitas a partir de testemunhos das pessoas que viveram naqueles bairros, foi apresentado no Salão Nobre dos Paços do Concelho, que encheu para um evento inserido nas comemorações dos 50 Anos do 25 de Abril – Venham Mais Vinte e Cincos.

Em 112 páginas, a obra partilha, com fotografias inéditas, entrevistas e pesquisa documental, o que era Setúbal na madrugada de 25 de abril de 1974. “Nesse dia as moradoras e moradores destes bairros de barracas, que cobriam grandes partes da cidade, iniciaram uma luta pelo direito mais básico que o fascismo negava violentamente: o direito à habitação”, afirma Jaime Pinho, na nota de abertura do livro.

Carla Guerreiro recordou que esses “eram os tempos da miséria de não ter casa digna, da pobreza de quase não ter o que comer, da desgraça de ser condenado a viver excluído nas margens mais distantes da cidade e da sociedade”, notando que em 1970 “mais de 11 mil pessoas” viviam nos 22 bairros da lata, os chamados “bairros da folha de Setúbal” ou “bairros dos índios”.

Neles, apesar das carências, “vivia gente digna”, que “lutava diariamente para sobreviver” com “trabalhos mal pagos”, muitos deles na indústria conserveira, e se levantava de madrugada para “acartar com baldes de água para encher os precários depósitos de tão precárias casas de lata e madeira”.

Aquelas 11 mil pessoas, “um quarto da população” de Setúbal, viviam “em condições de salubridade absolutamente inaceitáveis, sem água, sem instalações sanitárias, sem luz, sem nada mais que não fossem umas tábuas e umas folhas de lata para as proteger da chuva, do frio e do sol”, notou Carla Guerreiro.

Graças ao 25 de Abril de 1974, “muitos milhares de pessoas, por todo o país, mostraram o que podiam fazer com a sua vontade e as suas mãos” e, como lembrou a autarca, os “índios setubalenses” fizeram “a revolução nas suas casas e nos seus bairros”, revolucionando as suas vidas.

“Os bairros dos índios foram acabando naqueles anos de esperança do pós-25 de Abril, mas novos bairros degradados foram nascendo”, disse, adiantando que “nem um ano ainda passou” desde que foi erradicado o último aglomerado de barracas de Setúbal, na Quinta da Parvoíce.

A autarca recordou que esse bairro “nasceu já no século XXI, fruto de circunstâncias que em nada podem ser relacionadas com o passado ditatorial”, mas sim da “incapacidade que o Estado teve, nos últimos anos, de encontrar políticas de habitação que permitam encontrar casas a preços acessíveis e criar um mercado de arrendamento a que todos possam aceder”.

Carla Guerreiro lembrou que, para minorar o “problema gravíssimo de falta de habitações”, a Câmara Municipal está a construir habitação e a reabilitar os fogos municipais arrendados “e que há muito deviam ter sido beneficiados”, num investimento de “quase 200 milhões de euros” com o apoio de verbas do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência.

“Estamos a terminar projetos para lançar concurso para novas 500 habitações da iniciativa municipal para serem colocadas em renda apoiada. O IHRU, em parceria com o município, tem 900 fogos de construção nova para colocar em renda acessível e a ACM tem mais 80 fogos para colocar em renda acessível.  A Câmara Municipal está a desenvolver um procedimento público para lançar no mercado a construção de 168 novos fogos para renda a custos controlados”, afirmou.

A quatro dias de se celebrarem os 50 anos do 25 de Abril, sublinhou que a intenção é construir “um futuro melhor para quem quiser viver em Setúbal” e “uma cidade com casas dignas para todos”, considerando que os moradores daqueles 22 bairros de lata “também eles fizeram de Abril uma revolução”.

Em representação dos autores, Vanessa Iglésias Amorim agradeceu os vários apoios recebidos para a edição de 550 exemplares, incluindo da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia de São Sebastião e da União das Freguesias de Setúbal, afirmando que o livro foi concebido este ano para comemorar os 50 anos do 25 de Abril.

“O fascismo tornava a cidade sombria. As fotos mostram a cidade marcada pela pobreza e pela miséria, para não nos esquecermos”, disse, recordando que nos bairros SAAL – Serviço Ambulatório de Apoio Local, criados após a revolução, “as pessoas quiseram ficar no mesmo lugar” onde viviam, “quiseram um outro mundo no mesmo lugar”.

Editado pelo Centro de Estudos Bocageanos, o livro foi classificado pelo respetivo representante na cerimónia, Daniel Pires, como “um documento histórico, social e político de inegável valor”, enquanto a autora do prefácio, Ana Alcântara, afirmou que a obra “revela novas fontes para a história de Setúbal durante o Estado Novo”, permitindo “olhar de frente para as casas e bairros de um quarto da população de Setúbal na altura”.

Conceição Sobral e Irene da Conceição, duas das moradoras que prestaram testemunhos para o livro, recordaram a miséria que se vivia naqueles bairros e a luta que travaram para conseguirem ter uma habitação condigna, conseguida após o 25 de Abril no âmbito do processo SAAL.

As fotografias e o relatório que estão na base do livro estão disponíveis a partir de hoje no site do Arquivo Municipal, nesta ligação, podendo as fotografias ser vistas aqui.