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Por Terras de Zeca - Concerto

Uma exposição com desenhos que revisitam as terras por onde Zeca Afonso passou e um livro-disco com duas gravações inéditas do cantautor foram apresentados no dia 12, na Casa da Cultura.


“Por Terras de Zeca”, assim se chama a mostra dedicada a José Afonso, inaugurada na tarde de dia 12 na Galeria de Exposição da Casa da Cultura, no âmbito das Comemorações dos 45 anos do 25 de Abril e do 90.º aniversário do nascimento do cantautor.

“Como tenho 43 anos, para mim, acho que o Zeca viveu cedo de mais e partiu cedo de mais”, começou por partilhar o vereador da Cultura da Câmara Municipal de Setúbal, Pedro Pina, na cerimónia de apresentação da exposição e de um livro-disco, com duas sessões inéditas do cantautor.

O autarca assumiu em nome da Câmara Municipal que toda a comunidade deve fazer “muito mais” pela memória de Zeca Afonso. “O seu legado, o que nos continua a dizer pelas suas palavras, pelas suas músicas, merece um cuidar muito atento.”

Depois de afirmar que a autarquia continua, diariamente, a preservar os valores de Abril e a memória de José Afonso, Pedro Pina manifestou ainda palavras de apreço pelo poeta e cantor, falecido a 23 de fevereiro de 1987, aos 57 anos, em Setúbal, onde morava há duas décadas.

“Permitam-me o meu egoísmo, mas gostava de ter partilhado, nesta cidade, muito mais tempo com ele, que não tive oportunidade de fazer”, afirmou o vereador perante uma Sala José Afonso da Casa da Cultura completamente lotada.

Assinada por Pedro Sousa Pereira, a mostra, composta por vinte ilustrações a preto e a branco e a cores, partilha com o público um olhar atento sobre aspetos relacionados com a vida e o percurso de Zeca Afonso, com base em textos do jornalista Adelino Gomes, que integram o livro-disco apresentado também na sexta-feira.

Foi nos intervalos do trabalho “Guerra e Paz” que Pedro Sousa Pereira começou a “devorar” os textos de Adelino Gomes. “Tentei ser o mais correto possível com o trabalho dele”, referiu o ilustrador, que conduziu ainda um workshop de ilustração no sábado à tarde, na Casa da Cultura, no âmbito da mostra “Por Terras de Zeca”.

Através de desenhos de pequeno e médio formato, acompanhados de legendas que ajudam o visitante a identificar a época a que se referem as ilustrações, o artista percorre episódios da vida pessoal de José Afonso, nascido a 2 de agosto de 1929, em Aveiro.

Numa das duas dezenas de ilustrações de Pedro Sousa Pereira, que podem ser admiradas até 28 de abril, na Galeria de Exposições da Casa da Cultura, à quinta, sexta e sábado das 10h00 à 01h00, e ao domingo, terça e quarta das 10h00 às 22h00, está a prova de cor do poster “José Afonso”, da autoria de Manuel Sousa Pereira, apreendido pela PIDE em 1972.

Além da inauguração da exposição, “Por Terras de Zeca” contou com a apresentação de duas gravações inéditas com sessões musicais de José Afonso, compiladas no livro-disco de grande formato, com vinil e dois CD.

Com edição da Tradisom, tratam-se de dois registos de som correspondentes a duas apresentações distintas. A primeira na queima das fitas no Teatro Avenida, em Coimbra, a 4 de maio de 1968, a segunda no salão da Sociedade de Instrução e Recreio de Carreço, em Viana do Castelo, a 23 de fevereiro de 1980.

“Foi inacreditável ter esta oportunidade. Isto aconteceu muito rápida e inesperadamente durante uma conversa de amigos em Vila Verde dentro de um carro quando começou a tocar uma música que eu não conhecia de Zeca Afonso. Depois tentei perceber se havia mais coisas para descobrir”, revelou José Moças, editor discográfico.

Ávido de curiosidade, foi através de pesquisas na internet que o editor discográfico descobriu outra pista. Uma foto postada no Facebook com a indicação de um concerto em Coimbra, em 1968, que teria sido gravado pelo professor Jorge Rino, que ainda guardava a bobina.

A recente descoberta da sessão musical em Carreço concretizou-se pela “teimosia” de um fã do poeta e cantor, Manuel Mina, que, em 1980, decidiu vender bilhetes para um espetáculo que nem data tinha e garantir sala cheia numa sociedade local.

“Com esta operação de crowdfunding, o Manuel Mina conseguiu vender mais de duzentos bilhetes. Uma das pessoas comprou logo 25 de uma vez”, relatou Adelino Gomes.

Para estas duas gravações foi necessário o consentimento da família, concretamente da viúva do cantautor, Zélia Afonso, e dos filhos Joana e Pedro, que deram “carta branca” para avançar com a edição. Apenas colocaram a condição de que os registos de som fossem acompanhados de um livro que contextualizasse os concertos.

A investigação foi encomendada a Adelino Gomes, o primeiro jornalista a entrevistar Zeca Afonso quando este regressou a Portugal vindo de Moçambique em 1967, no Cais das Colunas, em Lisboa, para um programa que tinha começado há uma semana, chamado PBX.

“Foi a Zélia que me deu essa incumbência. Ela disse-me: ‘Se calhar aquelas duas gravações não acrescentam nada à glória do Zeca, até porque são gravadas em cassete. Nós só aceitamos que sejam editados se houver um contexto. Porque é que ele foi a Coimbra cantar? O que é que aconteceu para ele ir a uma aldeia no Minho?”

Numa operação dura, devido a lacunas deixadas pela censura fascista, Adelino Gomes seguiu todas as pistas possíveis para estabelecer ligações entre aqueles dois momentos musicais e a vida política no país da altura, como é o caso do período pós PREC – Processo Revolucionário em Curso.

“O José Afonso era como um elefante na sala de censura. Nos registos da PIDE não há identificação dele, ou quando o fazem é para dizer que esteve um homem a cantar e a tocar guitarra”, referiu Adelino Gomes.

Além de resgatar momentos do contexto sociopolítico do país, o jornalista de 74 anos revela pormenores da vida de Zeca Afonso desde 1967 até à crise estudantil de 69, e dos anos 70 e 80, nomeadamente o regresso de Moçambique e a depressão que o obrigou a ficar internado na Casa de Saúde de Belas.

Na sessão de apresentação do álbum-disco, conduzida pelo radialista António Macedo, e na qual estiveram presentes amigos que privaram com o cantautor, participaram ainda Anália Gomes, criadora da página de Facebook dedicada ao autor de “Grândola Vila Morena”, e elementos da Associação José Afonso.

Além destas iniciativas, “Por Terras de Zeca” inclui um espetáculo que percorre, ao longo do ano, todo o país, o qual se estreou no dia 12, à noite, no Fórum Municipal Luísa Todi.

“Verdes são os campos”, “Que amor não me engana”, “Índios da Meia Praia” e “Venham mais cinco” foram alguns dos temas apresentados, que surgiram revestidos de novos arranjos, aliados a músicas originais e a composições menos conhecidas do público, como “Papuça”, “Lá no Xepangara” e “Ali está o rio”.

Durante uma hora e vinte minutos, em dueto, em quarteto ou a solo, os temas foram interpretados Zeca Medeiros, Filipa Pais, Maria Anadon e João Afonso, acompanhados por Davide Zaccaria, na guitarra acústica e no violoncelo, Armindo Neves, na guitarra elétrica, Pedro Batalha, no baixo, e André Sousa Machado, na bateria.

“Por Terras de Zeca” prossegue no dia 20, às 15h30, na Casa da Cultura, com uma animação de leitura para famílias com crianças entre os 3 e os 10 anos, do ciclo “Às Páginas Tantas…Quantas?”.