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Na época tradicional de gozo de férias, recordamos as propostas do Estado Novo para os tempos de lazer dos trabalhadores e das suas famílias, através da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), um organismo que, após a Revolução dos Cravos, daria lugar ao INATEL.

A FNAT, criada a 13 de junho de 1935 pelo então chefe do Governo, António de Oliveira Salazar, tinha como objetivo a criação de infraestruturas destinadas a promover e acolher atividades culturais, desportivas e recreativas, visando um «maior desenvolvimento físico e moral» da população, de acordo com o Decreto-Lei n.º 25495, que a aprovou. Este modelo, que, na prática, foi cuidadosamente enquadrado e vigiado de perto pelo Estado Novo, constituía-se como mais uma ferramenta ao seu dispor, ainda que o conceito não fosse originalmente português. A FNAT era uma cópia que António Ferro, o diretor do Secretariado de Propaganda Nacional, fez da organização nacional-socialista Kraft durch Freude, ou «A Força pela Alegria», da Frente Alemã para o Trabalho, e também partiu de uma inspiração italiana de 1925, quando Mussolini criou o «Dopolavoro», ou o «Depois do Trabalho», igualmente enquadrado no controlo do tempo livre das populações da Itália fascista de então. Embora tivesse sido criada com objetivos ocultos, a FNAT tem o mérito de colocar, pela primeira vez, em vigor o «turismo social» no país, já que «até às primeiras décadas de 1900 o turismo era sobretudo uma atividade de luxo reservada aos mais favorecidos», conforme refere o INATEL, constituindo-se igualmente como um movimento progressivo de democratização do acesso ao gozo de férias.

Curiosamente, Setúbal esteve ligada à FNAT desde o início. A primeira excursão organizada por esta fundação teve lugar em 22 de setembro de 1935, precisamente a Setúbal e à Serra da Arrábida, e destinava-se aos filiados nos sindicatos nacionais do distrito de Lisboa, numa iniciativa conjunta com o já extinto Sindicato Nacional dos Operários da Indústria de Conservas do Distrito de Setúbal.

Só nos anos 50 é que Setúbal ganhou instalações próprias, quando a direção da FNAT resolveu abrir uma filial, num projeto entregue ao arquiteto João Simões, autor, entre outras obras, da Casa da Imprensa e dos estádios universitários de Lisboa e de Braga. O edifício setubalense foi construído entre 1952 e 1954 e tinha excelentes instalações, como um amplo ginásio polivalente, salas para reuniões e secretaria e, mais tarde, um bem apetrechado refeitório no piso térreo. O refeitório foi inaugurado em maio de 1963 e servia almoços aos sócios a preços muito acessíveis, sendo frequentado essencialmente por funcionários públicos e trabalhadores dos serviços da Baixa setubalense. Além do aspeto interessante de todo o edifício do ponto de vista arquitetónico, salienta-se o painel cerâmico de um autor não referenciado, situado na parede poente. Este painel apresenta uma rosa-dos-ventos e figuras humanas, em escala natural, representativas de várias profissões existentes em Setúbal, com o intuito de reforçar a dignificação corporativa do trabalho.

Durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, a FNAT tornou-se um importante centro de convívio dos trabalhadores da cidade e, entre as atividades desenvolvidas, destacavam-se os cursos de alfabetização e ensino noturno, espetáculos musicais e de teatro, bailes e serões recreativos, atividades desportivas, excursões, turismo social e formações profissionais. A fotografia que ilustra este artigo, com o código de referência PT/AFAMR/FAR/NTR/04301, do Arquivo Municipal de Setúbal, é da autoria de Américo Ribeiro e mostra uma das inúmeras atividades realizadas pela FNAT: uma gincana de motas realizada na Avenida Luísa Todi, no verão de 1956.

Depois do 25 de Abril, a FNAT passou a chamar-se INATEL – Instituto Nacional para o Aproveitamento dos Tempos Livres – e foi profundamente reformulada nos seus objetivos. Perdeu definitivamente o seu enquadramento político, orientando-se antes para a promoção da cultura, do turismo social, do desporto e da solidariedade, constituindo-se, em última análise, tanto a FNAT como o INATEL, como importantes testemunhos da história social de Setúbal ao longo de décadas.

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