Bolsas de Criação Artística

PROJETOS SELECIONADOS

DA PRIMEIRA EDIÇÃO

DAS BOLSAS DE CRIAÇÃO ARTÍSTICA

A primeira edição do programa de Bolsas de Criação Artística, lançada pela Câmara Municipal de Setúbal, que se destina a apoiar criadores e/ou coletivos que desenvolvam projetos em diferentes áreas artísticas, proporcionando-lhes não só um incentivo financeiro, como a possibilidade de usufruírem de um espaço de trabalho nas instalações d’A Gráfica – Centro de Criação Artística durante o processo de trabalho, seja ele de pesquisa, investigação ou experimentação, recebeu 306 candidaturas.

Saudamos esta adesão tão substantiva, com uma diversidade de abordagens à criação artística – nos media, nas questões problematizadas, nos géneros artísticos, nas origens geográficas… – que é mais uma prova da vitalidade e valor do tecido cultural e artístico em Portugal (continente e regiões autónomas).

Fizeram parte do painel de júris Cláudia Galhós (jornalista especialista nas Artes Performativas e escritora) e Tiago Pereira (realizador, documentarista, radialista e visualista), em articulação com a Divisão de Cultura da Câmara Municipal de Setúbal.

A escolha do júri não foi facilitada, felizmente, tendo em conta a grande qualidade da maioria das propostas submetidas ao programa e que esperamos possam ser viabilizadas. Estas propostas são da maior importância e relevância, tanto para a arte como para a problematização de grandes temas, sociais e políticos, sobre os quais todos temos de refletir; e são da maior importância também pela pluralidade da representatividade de vozes e identidades distintas, que têm de ser ouvidas e que urge ter maior presença em todas as esferas do espaço público, de que a cultura e arte participa.

Sendo esta uma primeira edição, e de acordo com o que foi previamente tornado público no texto das normas de participação, foram tidas em conta algumas linhas orientadoras na seleção dos projetos. Um dos critérios valorizados foi a relação com o território (Setúbal e/ou o novo equipamento cultural, A Gráfica – Centro de Criação Artística), sendo que prevaleceu sempre a qualidade do projeto artístico sobre tudo o resto.

Na impossibilidade de nomear mais de duas centenas de candidaturas que, pela sua singularidade, suscitam interesse, têm mérito indiscutível e dizem de uma riqueza criativa, cultural e artística de todo o país, importa sublinhar mais uma vez a pluralidade de vozes, abordagens e entendimentos sobre as possibilidades e a imaginação artística. Aqui incluem-se projetos sobre a imigração; questão do género; racismo; transfobia; a exploração do trabalho; a tradição; as memórias; a História; a construção de comunidade; sobre a emergência climática; projetos de mapeamento, diálogo e levantamento do património natural, humano e construído de Setúbal, da sua Serra da Arrábida e do rio Sado; mas também se incluem, o que muito valorizamos, propostas de interrogação formal da arte por si mesma.

Deste universo plural, não podemos deixar de referir alguns projetos que nos merecem particular atenção e elogio e aos quais estaremos atentos e esperamos venham a viabilizar-se (também aqui não referimos os projetos que já estão viabilizados e que saudamos por isso mesmo): “Maria do Mar”, de Cátia Vidinhas, um documentário de animação e fanzine, a partir das vidas de mulheres trabalhadoras de Setúbal com profissões tradicionalmente masculinas; “Jogo da Bixa”, espetáculo ao vivo e virtual, com conversas e workshops, e uma profunda interrogação do lugar dos corpos dissidentes, fundamentada com um justo lugar da fala porque as artistas criadoras e performers são, elas próprias, “corpas dissidentes”: Aurora Pinho, Jaja Rolim e Resme Orah; “Minuto 20:22” (projecto 58), de Tiago Bôto & Wagner Borges, entre o teatro, a dança e as artes visuais, que se propõe confrontar a solidão e a perda dos corpos na experiência de ruína; “Investigação vocalgráfica – o que as vozes podem escrever”, de Vera Marques, uma performance multidisciplinar de estudo sobre os lugares da voz que também é experimentação vocal coletiva, documentário e produção musical; “Casa das Flores”, de Alexandra Barbosa e Inês Pinto, que se debruça sobre a noção de casa e a condição específica da vivência de jovens criadoras mulheres como matéria ela mesma de reflexão; “100 homens”, de Alice Gonçalves, num projeto de edição de livro e a interrogação da masculinidade, propondo uma outra ideia de masculinidade alternativa à convencionada, crítica sobre a masculinidade tradicional (que também foi suscitada na proposta “Projeto SuiGeneres”, de Nuno Labau, de dança, teatro físico e novo circo); “Música Marginal Portuguesa”, de João Leitão, que prossegue um aprofundamento do desafio de levar mais longe as capacidades expressivas de instrumentos musicais tradicionais – viola braguesa, concertina e percussão – e um coro feminino; “Nadir”, de Filipe Baptista, na procura de relação com uma ancestralidade por via das danças urbanas; “Inside”, de Miltécio Souza dos Santos, obra audiovisual construída por artistas emergentes transvestigéneres (travestis, transexuais e transgénero) e/ou imigrantes e/ou racializados; “Talvez agonizássemos todos e todos nós esperássemos cantar”, de Gustavo Antunes, peça de dança-teatro de pesquisa sobre os mecanismos de evasão do ser humano, para três criadores e performers emergentes – Gustavo Antunes, Júlia Medina e Cristina Vizir – sob orientação de Félix Lozano; “Situações suavemente políticas”, de Andresa Soares, que visa a criação de três performances em que o público é implicado e ativa “situações suavemente políticas” sobre a nossa organização como sociedade, que passa por dilemas ecológicos, obsessão material ou a deslocação da empatia; “Arquivo Colectivo”, da AAD – Associação Arquivo dos Diários, projeto de performance em torno da memorabilia de coletividades de cultura, recreio e desporto… e tantos ficam por destacar…

Tendo em conta o que ficou expresso, o júri entendeu atribuir as três Bolsas a:

  • “Quis Saber Quem Sou”, de António Aleixo.
    Projeto de filme documental do realizador que parte da procura de saber quem foram os seus avós, proeminentes figuras da burguesia setubalense nas décadas de 1960 e 1970, suscitado pela descoberta do que qualifica de “um tesouro”: 11 horas de filme, em Super8, captadas pelo seu avô, João Rodrigues Aleixo.
  • Over-our-head drawings”, de Marta Cerqueira.
    Projeto inscrito na noção de campo expandido da dança, concretizando-se numa instalação visual participativa em que o movimento dos espetadores-participantes em interação com o dispositivo artístico criado (elementos escultóricos, o ambiente sonoro e visual da instalação) ativa uma relação ecológica entre os visitantes e o meio ambiente artisticamente concebido. Todas as vertentes da experimentação são atravessadas pelo verbo Brincar, sendo que esta proposta é direcionada preferencialmente para público adulto.
  • “Álbuns da Terra – um imaginário familiar”, de Tânia Dinis.
    Projeto de fotografia, arquivo, cinema e teatro. Nesta proposta concebida especificamente para o contexto de Setúbal e A Gráfica, parte das memórias de um grupo de participantes que vão partilhar com a criadora o ritual familiar de visualização de fotografias de família, com vista a uma criação performativa. Os encontros/pesquisa que darão substância à performance vão incidir sobre a população setubalense, considerando como matéria de inspiração A Gráfica e os seus ex-trabalhadores.