Arquivo Municipal | Documento do Mês
Com uma base de dados com cerca de 13 mil imagens documentais, o Arquivo Municipal de Setúbal partilha com o público, todos os meses, documentos que marcam a história, as vivências, as memórias que constroem a identidade do concelho.
Através da partilha do acervo do Arquivo Municipal, revela-se o dia a dia que construiu e continua a construir o código genético de Setúbal.
Arquivo Municipal | Documento do Mês | Assento de óbito de Paula Borba
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No mês em que se assinala os 87 anos do falecimento de Paula Borba, figura local de mérito, marcadamente associada à luta pelos mais desfavorecidos, o documento do mês apresentado mostra o seu assento de óbito, constando o mesmo do extenso espólio do Arquivo Municipal de Setúbal

Francisco de Paula Borba foi um notável médico cirurgião nascido nos Açores, em Angra do Heroísmo, a 24 de março de 1873, mas é sobretudo em Setúbal que ganha notoriedade, tanto a nível local como nacional, designadamente como um inexcedível benemérito.

Depois de formado em Lisboa, em 1898, ruma a Setúbal, onde se regista, desde logo, a sua primeira consulta, foi prestada de modo gratuito. Ao longo da vida foi constante a sua postura em prol dos mais desprotegidos. Contribuiu para os mais necessitados, tanto no âmbito da sua profissão, como igualmente como mecenas, patrocinador ou doador de auxílio monetário a quem a vida não lhe corria de feição.

A popularidade desta figura central da vida setubalense é de tal monta que levou João Francisco Envia, na obra “Setubalenses de Mérito”, a ilustrá-lo através de um episódio exemplificativo da importância de Paula Borba à época: ao ser recebida uma ordem por telégrafo, em 23 de agosto de 1917, para este médico ser incorporado em Ourique, as forças vivas da cidade fizeram um protesto em que participaram as mais variadas associações profissionais numa reunião ocorrida no Casino Setubalense.

Essa reunião contou, igualmente, com elevada adesão popular, numa multidão que incluía os respetivos pacientes e as pessoas que, de alguma forma, tinham sido apoiadas pelo filantropo. Tudo isto numa ação concertada para evitar que esta incorporação militar resultasse na saída de Setúbal de Paula Borba.

Foram tantas as personalidades envolvidas, e de tal modo, que resultaria na anulação desta ordem de incorporação. Entre os membros influentes encontrava-se Manito Torres que, para comemorar a anulação da ordem militar, lançou uma subscrição para se adquirir uma peça de valor como oferta ao cirurgião.

Este, ao saber da intenção, propôs como alternativa que os fundos angariados fossem colocados ao dispor do bem-estar público, originando-se assim a edificação do Balneário Paula Borba, cuja utilidade foi logo posta à prova ao disponibilizar banhos públicos numa época em que todas as medidas de higienização tinham um papel fulcral, com efeitos ainda decorrentes da gripe pneumónica.

Com inauguração a 30 de maio de 1926, a esta obras outras seguiram-se, designadamente o Hospital da Misericórdia, bem como variadas enfermarias. Para todas elas foi fundamental o envolvimento, patrocínio e empenho na angariação de fundos e deste modo foram igualmente instalados no concelho sadino um refeitório para os mais desfavorecidos no Asilo Acácio Barradas, ou a criação da assistência infantil no então Asilo Bocage, que depois adquiria a designação de Paula Borba, entre muitas outras iniciativas que colocavam sempre em primeiro lugar nos seus objetivos e preocupações para quem menos podia.

Por portaria de 14 de maio de 1921, foi louvado pelo Ministro do Trabalho pelos altos serviços prestados à obra de assistência, especialmente aos mais velhos, tendo recebido em 24 de março de 1927, o título de Cidadão Honorário de Setúbal, uma distinção concedida pela primeira vez em Setúbal. Além disso foi atribuída pela edilidade sadina um topónimo no concelho que ainda vigora.

Enaltece, igualmente, João Francisco Envia, que “este grande homem”, recordado acima de tudo como um benfeitor, faleceu a 26 de setembro de 1934, em Setúbal, sucedendo-se um funeral com uma participação raramente observada em Setúbal.

Com o código de referência PT/AMSTB/CMSTB/N-A-01/005/011, o assento de óbito consta entre um conjunto de cerca de 13 mil documentos, dos quais uma assinalável parte pode ser consultada no Arquivo Digital, constituindo-se como uma fonte primária de informação que espelha fielmente a história concelhia ao longo dos tempos.