Arquivo Municipal | Documento do Mês
Com uma base de dados com cerca de 13 mil imagens documentais, o Arquivo Municipal de Setúbal partilha com o público, todos os meses, documentos que marcam a história, as vivências, as memórias que constroem a identidade do concelho.
Através da partilha do acervo do Arquivo Municipal, revela-se o dia a dia que construiu e continua a construir o código genético de Setúbal.

Autarca heroico celebrado

Documento do Mês | Autarca heroico celebrado
Documento do Mês | Autarca heroico celebrado

A figura relembrada no Documento do Mês é António José Baptista, antigo presidente da Câmara Municipal de Setúbal, mas igualmente um herói local pela defesa dos interesses da terra e das suas populações. Assinala-se agora  a passagem do 110.º aniversário da sua morte, ocorrida a 12 de julho de 1912

O assento de óbito registado no respetivo livro de inumações tem o código de referência PT/AMSTB/CMSTB/N-A-01/005/006 e é consultável na página própria do Arquivo Municipal, dando conta que o antigo autarca foi sepultado no dia 14, pelas 13h30, em Setúbal, acontecendo isto dois dias após o óbito que se deu em Lisboa.

O documento, além de mostrar como eram os registos da época, serve igualmente como ponto de partida para elaborarmos sobre a vida e obra de António José Baptista, designadamente acerca da importância e impacte das suas ações na urbe sadina em prol de todos e em várias esferas de atuação: politicamente, profissionalmente ou mesmo pessoalmente.

Foi, por duas vezes, presidente da Câmara Municipal de Setúbal, no quadriénio de 1896 a 1899 e de 1906 a 1910, associando-se a esta personalidade a realização de obras estruturantes no concelho, sendo que algumas delas ainda hoje perduram.

Entre as mais emblemáticas, ou mais conhecidas, conta-se o Liceu Bocage, o coreto da Avenida Luísa Todi e a Praça de Touros Carlos Relvas, estando também na origem da empresa que iria conceber o Teatro Rainha D. Amélia, atualmente o Fórum Municipal Luísa Todi.

Caracterizado por todos, apoiantes ou mesmo opositores, como um incessantemente lutador, bateu-se por um trajeto da rede ferroviária que inclui a cidade de Setúbal no seu percurso. Contra esta pretensão sadina estavam altas personalidades e instâncias de Lisboa, que pretendiam que a linha do comboio ficasse entre o Pinhal Novo e o Poceirão, desviando-se, assim, permanentemente de Setúbal. Como medida surpreendente, o que espelha uma imagem de marca invulgar, António José Baptista resolve ir tirar teimas com o ministro da tutela dos transportes da altura, agarrando-o fisicamente e prometendo-lhe custear do seu próprio bolso o túnel das Fontaínhas.

Foi um homem de vontade férrea, incapaz de aceitar um não, dispondo-se a fazer de tudo para que a ferrovia fosse uma realidade na cidade. Este antigo presidente da Câmara Municipal foi igualmente o percursor das obras iniciais do Porto de Setúbal, dotou a cidade com o lavadouro público do Bonfim e também teve o mérito de fazer substituir a iluminação a gás por elétrica. A sua benfeitoria foi um passo decisivo para a construção do hospital da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal ao oferecer materiais de construção no valor de 50 mil réis, uma avultadíssima quantia para a época, ficando esta doação registada na ata desta instituição datada de 8 de junho de 1892.

Descrito como um homem de ar aparentemente rude, mas com um “coração de ouro”, tanto a sua atividade profissional – pois era um industrial largamente abastado –, como a política e a vida pessoal mantinham-no num eterno corrupio. Por vezes não tinha outra solução, cómica até, senão a de levar consigo inúmeros apontamentos atulhados dentro do chapéu.

Esta figura sai grandemente reforçada aos olhos dos habitantes da época, designadamente pelo apoio aos mais desfavorecidos, a quem jamais negava ajuda financeira, até do próprio bolso. Sob este último aspeto, frisa Manuel Vieira no livro “Coisas de Setúbal: anos 40”, que, “possuindo largos meios de fortuna, não olhava a despesas na luta travada. Espalhava às mãos largas dádivas e dinheiro e a sua mesa estava sempre posta para toda a gente, o que o tornava quase um ídolo da pobreza”.

Faleceu em Lisboa, em 12 de julho de 1912, tendo sido tresladado para Setúbal, realizando-se o funeral no Cemitério de Nossa Senhora da Piedade dois dias depois, pelas 13h30, com acompanhamento musical de bandas filarmónicas de Setúbal e de Palmela, entre outras, contando-se uma população massiva a acompanhar a cerimónia e o enterro.

Deram notícia do falecimento e enterro os jornais da época, designadamente a publicação “A Mocidade”, na edição de 15 de julho de 1912, que destaca que “o falecido foi por muitos anos presidente da Câmara de Setúbal e esta cidade deveu-lhe grandes benefícios”, enquanto o “Elmano”, de 13 de julho, refere-se à sua enorme ação e influência política, e, “A Folha de Setúbal”, igualmente na edição desse dia, dá nota de que o falecimento foi súbito e que António José Baptista tinha ganhado a fama de “senhor absoluto de Setúbal”, exercendo o poder de uma forma intensa, referindo-se no artigo que teve “uma vida inegavelmente ativíssima”, parecendo a alguns tratar-se de um “semideus político”.