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Exposição "45 Anos – Plano de Trabalho Cultura e Serviço Cívico Estudantil" | Museu do trabalho Michel Giacometti

Imagens fotográficas que documentam o Plano Trabalho e Cultura, uma das ações do Serviço Cívico Estudantil liderado pelo etnomusicólogo francês Michel Giacometti, podem ser vistas até setembro, numa exposição organizada pela Câmara Municipal de Setúbal.


A mostra fotográfica patente no Museu do Trabalho Michel Giacometti, inaugurada no dia 4, reúne cerca de cinco dezenas de películas, maioritariamente a preto e branco, que propõem ao visitante uma viagem aos tempos do Plano Trabalho e Cultura, uma das ações do Serviço Cívico Estudantil.

Dois registos a cores que ilustram a cerimónia da exposição inaugural do Museu do Trabalho, com a presença do próprio Giacometti, são exemplos de outras fotografias que podem ser vistas até 26 de setembro, de segunda a sexta-feira das 09h00 às 19h00 e aos sábados das 14h00 às 19h00.

A exposição “45 anos – Plano de Trabalho Cultura e Serviço Cívico Estudantil” revela, entre outros, imagens inéditas de entrevistas realizadas por estudantes, retratos de participantes e dirigentes do Serviço Cívico e de habitantes das aldeias com quem conviveram, assim como registos de festividades e habitações.

O Plano Trabalho e Cultura, impulsionado e estruturado por Michel Giacometti, e que obteve financiamento do Estado, de municípios e da Fundação Calouste Gulbenkian, tratava-se um projeto de cunho vincadamente militante, com traços de “Travail et Culture”, um dos principais grupos de educação popular surgidos no pós-guerra em França e nas suas colónias norte-africanas.

Pouco depois do 25 de Abril de 1974, 28 mil jovens estudantes pretendiam candidatar-se à universidade, o que representava o dobro dos alunos em relação ao ano anterior, para aproximadamente 14 mil vagas.

Em plena conjuntura revolucionária, tornava-se imperativo solucionar a impossibilidade de o ensino superior receber tantos estudantes. Neste contexto, a 30 de maio de 1975, é criado o Serviço Cívico Estudantil, que durou dois anos, até 17 de junho de 1977, com a normalização constitucional.

O plano, construído e supervisionado no terreno por Giacometti, levou, durante os três meses do Verão Quente de 1975, mais de uma centena de jovens em idade pré-universitária a um Portugal mais profundo e remoto, de Trás-os-Montes ao Algarve, ao encontro de comunidades rurais e piscatórias.

Os objetivos principais passavam pela promoção da animação cultural e formação de associações e cooperativas e pela recolha etnográfica musical, literária, sanitária e material, constituída por instrumentos de trabalho.

Na sequência destas recolhas existem milhares de fichas dactiloscritas, fotos, objetos etnográficos e instrumentos agrícolas únicos que formaram o núcleo museográfico fundador do Museu do Trabalho Michel Giacometti.

A exposição “45 anos – Plano de Trabalho Cultura e Serviço Cívico Estudantil” é a representação de momentos e vivências que decorreram desta experiência inovadora em Portugal, decorrida em pleno processo revolucionário.

Até 1986, Giacometti continuou a percorrer o país e a adquirir artigos, muitos dos quais apalavrados durante o Serviço Cívico, através do Plano Trabalho e Cultura.

Nascido em Ajaccio, na Córsega, em janeiro de 1929, Michel Giacometti foi criado por um tio, funcionário colonial da rota do Império Francês.

De origem francesa, o etnólogo rendeu-se aos encantos de Portugal, onde viveu, durante mais de trinta anos, até morrer. Dedicou-se à investigação da música popular, viveu para o povo, defendeu a identidade das culturas e das nações e acreditou nas minorias.

Enquanto estudante, fundou várias revistas e esteve ligado a atividades culturais. Foi poeta, crítico de arte, ator e diretor de uma companhia teatral.

Expulso de todas as universidades francesas por um período de cinco anos, por participar numa greve contra a discriminação dos árabes na vida pública de Argel, decidiu viajar, chegando a frequentar as universidades de nove países, exercendo, ao mesmo tempo, mais de três dezenas de profissões para poder subsistir e financiar os estudos.

Regressou a Paris, terminando o curso de Letras e Etnografia, na Universidade de Sorbonne.

“Mediterranée 56” é o nome da missão que criou, a seguir à conclusão da licenciatura, com o objetivo de investigar as tradições populares de todas as ilhas do Mediterrâneo.

A descoberta de Portugal dá-se em 1959, ao decidir fixar-se em Bragança, quando lhe diagnosticaram tuberculose e recomendaram um clima mais propício à cura. O casamento com uma portuguesa influenciou a escolha, iniciando, então, a investigação musical no Nordeste Transmontano.

Michel Giacometti recolheu informações etnográficas em mais de 600 freguesias, apesar das dificuldades financeiras por que passou, que o forçaram a dormir em pensões degradadas, choupanas de pastores, na casa de um contrabandista e, inclusivamente, na rua.

“Antologia da Música Regional Portuguesa”, uma coleção de cinco discos, feita com a colaboração do compositor Fernando Lopes-Graça, e o “Cancioneiro Popular Português”, editado pelo Círculo de Leitores, são algumas das obras de maior valor de Michel Giacometti.